Senti a areia fria entranhar-me nos pés, no local onde no passado fui feliz.
Sentia os ecos do passado comprimir-me o coração.
Suei e sentei-me um pouco apenas para mirar o infinito.
Dentro do mar milhares de sentidos lutavam pela luz inexistente.
O da liberdade voou mais alto.
A perdição acompanhou-o.
Fundiram-se numa arcaica mistura de cor azulada que rasgava o céu num traço simétrico.
Livre, mas perdido fluía pela estrada.
Munido de uma lágrima melancólica no limiar do olhar.
Não sei para onde vou agora.
Apenas sei onde termino.
O oceano separa os nossos corpos, mas não as memórias.
Sinto uma poça de luz inundar a minha alma de pequenos cristais.
Uma visão cristalina e límpida do teu sorriso tocando qual elipse o eixo do horizonte.
Entre frases lançadas e palavras escritas tento alimentar o fogo que me consome a vontade.
Perdido entre o Atlântico sinto a pele calma e fria. Entre águas profundas intimida-me a noção do esquecimento.
Aterroriza-me a ideia que não vou chegar à margem.
Fecho os olhos à passagem das ondas e imagino-te no outro lado.
À minha espera.
De braço aberto e estendido cantando o meu regresso triunfante numa ode sem fim.
Nado à procura da terra.
Da margem.
Da tua mão.
Uma delas.
Vício circular de nadar em volta da Terra.
Largo os braços e deixo-me à vontade da maré.
Haverá água suficiente para me separar do que sonho?
Há sempre água a mais dentro de nós.
Ausente, mas sempre presente.
Manias de quem tem a barba crispada.
Saboreio a minha solidão. Sabe-me a sol.
Sinto saudades da maresia lavar-me as lágrimas.
Aquele arrepio que me prolonga a espinha.
Ausente, mas sempre presente.
O balão que me preenche a cabeça vazia levanta voo.
Frágil transportando o nada em mim.
Não para de subir e ansiar pelo céu.
Ausente mas...
Nuvens negras pintam o horizonte.
Trovões ribombam na atmosfera.
E a minha mente encontra-se ausente, mas...
Tu não estás lá.
Não te vejo na parede, na memória, na fotografia que me mandaste.
Quero de presente o teu presente.
Não te quero ausente mas presente.
A indecisão é dura.
Divide e restringe.
Cria medos e ansiedades.
Parte e subtrai.
Entre as listas faz escolhas.
Impede e transpõe.
O silêncio afasta.
Cria espaços e brechas.
Intimida e rasga.
Entre os pólos separa.
Cria indecisões.
A indiferença destroi.
Magoa e corroi.
Cria vácuos e lágrimas.
Rompe e corrompe.
Gera silêncios.
Não preciso de mais que o teu olhar.
Preenche o lugar vago ao meu lado.
Senta-te e sorri.
Vê o mundo definhar enquanto permanecemos perenes.
Pinta-me às riscas.
Faz-me rir.
Conta-me as peripécias perdidas no templo puro.
Ganho sangue quando me olhas.
Perco-me no tempo.
Viajo para lugares longínquos por onde passei e sonho passar.
A salvação encontra-se no nosso toque.
Na som que emites.
Sussurra ao meu ouvido e faz-me sonhar em branco.
Quero rejuvenescer a teu lado.
Contar as rugas desaparecer.
Negar-me a mim mesmo.
Cansar-me e comer bolachas.
Dormir na viagem e abraçar-me à vida.
Talvez um dia os sonhos criem realidade.
Quero quebrar com as rotinas do passado.
Passear por Sintra e ingerir almofadas de açúcar.
Beber do teu olhar o néctar divino.
Perder-me ao tentar encontrar comida fora das horas vulgares.
Alargar o tempo e esticar a saudade.
Ouvir-te deambular pelos corredores da incerteza.
Amparar-te o ombro nas dúvidas que nos assolam.
Sorrir-te.
Prefiro a voz agressiva ao silêncio passivo da noite.
O calor humano ao frio incisivo.
O sol gelado acompanhado pela cálida luz da noite intermitente.
E nós no final da estrada.
Lancei-me aos teus pés.
Implorei perdão.
As lágrimas secaram.
O sabor a terra preenche a minha garganta.
Travo metálico e agreste.
Tudo se torna mais difuso.
Sinto-me perdidamente confuso.
A carne já não se levanta.
Tocaste-me com a peste.
Memórias de todos os que já amaram.
Deitado sinto o cérebro gasto.
Horrivelmente nefasto.
Largado e abandonado.
Simplesmente não encontrado.
Ouvi-te longe.
Pequenas letras no horizonte.
Subiste ao monte e tornaste-te inalcançável.
E aqui no triste chão definho e esmoreço.
Transformo-me em pó.
Dentro de mim só consigo escutar o eco da minha voz.
Vi o sol queimar-me as vontades, trocar-me o norte, ferver-me a sorte.
Não sou forte.
Sou algo diferente.
Algo permanente.
Escusas de tentar.
Já não ando por estas paragens.
Agarra nas imagens e lança-te à estrada.
Não fiques abandonada e permite-te amar.
Exiges que chova dentro de ti, mas pelo que vi, o sol habita essa tua frágil habitação.
Trata-me a pão e água.
Liberta-me da tua mágoa.
Suaves facadas abrasivas.
Mancham-me o corpo de vermelho sanguíneo.
As expectativas.
São machadadas bem dadas na minha carne tenra.
Fico de joelhos aguardando o toque final.
O golpe de misericórdia sentimental.
Até agora.
Pequenas sinapses alimentam o meu cérebro hoje.
O peso da noite deixou um leve travo a álcool que é mitigado com um prato de arroz.
Enquanto mastigo gentilmente os grãos turvados com sabor a queijo, relembro o sabor dos teus olhos rasgando o infinito, cantando a música que apenas tu sentias.
O cabelo esvoaçava como o garfo e o corpo movia-se livre, hábil, perspicaz como o líquido dentro do copo que sorvo sofregamente.
Trinta e três minutos depois estavas com outro.
É o fado do rock.
O momento passa e a oportunidade urge e desaparece.
Fica o espaço vazio.
A parede simpática que nos deixa antever a negação.
Dentro dele tudo existe.
A simples e composta inexistência.
Fico com o frio do dia na face.
E sonho em preencher o vazio entre nós.
Talvez um dia em que passe a ter outro nome.
Estavas sentada a olhar a serra.
Com vontade de saltar fora do veículo que te transportava.
O sol, manchava os prédios de uma claridade irreverente.
Por entre as sombras tu rasgavas a estrada com os teus instrumentos protectores da luz.
A escuridão criava ângulos agudos nas fachadas de cimento que o alcatrão circundava.
A serra saltou para o mar.
Salgado e pesado.
A revolta da espuma inundava a areia que se sentia subjugada pelo poder molhado da água.
As pobres partículas de rocha eram arrastadas, levadas contra a sua vontade, perante o olhar impávido do rochedo.
De vidros abertos sentias o som da água bater-te na pele.
Tiraste os óculos de sol e sorriste.
Dentro de ti abraçaste a fuga.
Sentiste que querias correr.
E assim fizeste.
Partiste o vidro e lançaste-te.
O vidro misturava-se com a água e a luz, criando pequenos arco-íris refractários.
Com os pés no chão, viste o veículo desaparecer.
Por vezes é preciso saber fugir.
A noite tinha largado a mão do horizonte.
A despedida foi breve.
Deixou-o sentado à espera do anoitecer.
Não tardava.
De relance viu duas estrelas que brilhavam numa cor ambígua.
Aqueles olhos sorriram de forma tímida.
Na tentativa de fazer boa figura o horizonte tropeçou e disse mais do que devia.
Sempre foi assim.
Desajeitado e impulsivo.
A lua chegou e com ela o desejo.
A vontade de quebrar e sonhar.
Anos passados, vidas cruzadas.
Sempre de mãos dadas.
O horizonte sentou-se longe das estrelas.
Mas elas brilhavam sempre que sorriam.
Sem luz, sem espaço, sem fôlego o horizonte inclinava-se e a noite tornava-se mais profunda e negra.
Queria aproximar-se, mas não sabia como.
E quando o dia nasceu, o horizonte sabia que não voltaria a ver as estrelas.
O seu coração feito de infinito chorou.
Uma lágrima caiu.
A chuva surgiu.
O vento sussurrou-lhe ao ouvido que só precisava aguardar.
Disse-lhe: "o amar, está no dar e no saber esperar."
O horizonte ignorou o vento.
O sol beijou-lhe a face, mas o horizonte não estava atento.
Olhava para o local onde as estrelas permaneceram.
Mas elas lá não se encontravam.
O dia passou e o horizonte chorou.
Mas quando entardeceu e o sol se despediu, o horizonte viu emergir as estrelas a sorrir.
E ali soube que podia nunca as conhecer, mas só de as ver, o seu coração fervia de emoção.
E todas as noites esperou.
Pela eternidade aguardou.
A sua linha soluçou.
E em sonhos as beijou.
Água azul cristalina.
Nela te reflectes.
Pensas em mergulhar no vento frio.
Nele te cortas.
A mão macia que te afaga a face crispada.
Queres saltar.
Vês as folhas que se desprendem da árvore e navegam ao sabor do tempo.
Já foste como elas.
Livre, ondulando nas aragens indeterminadas do universo.
Agora sentes-te rasgado, esgotado, reflexo desgastado na vitrina da vida.
Só te falta acordar.
Afoguei as minhas crenças para que pares de tremer.
Ajoelhei-me e limpei-te os pés.
Prostrado perante o teu cansaço.
Vergado perante a força gravítica que exerces sobre o meu corpo moribundo.
Mesmo que seja o teu a definhar e esmorecer, sinto que morro contigo.
O teu pequeno braço ondulava como uma pequena folha sobre o vento.
Por momentos olhei para o relógio.
Contigo não vivo. Apenas deixo o tempo passar.
Esperando que termine.
Que os ponteiros desapareçam.
Que nos levem aos dois para o lugar onde o tempo morreu.
A neblina cobria a planície como um pequeno cobertor que não consegue tapar todo o corpo.
Embalado pelo som dos pneus, sentia-me comandante do meu cruzeiro.
O comboio colidia com o caminho.
Sentia que não tinha nada a perder. Apenas deixava para trás a escuridão da noite.
Via pelo espelho retrovisor o vazio na estrada.
A solidão abandonada.
Observava o horizonte abrir-se, o orvalho formar-se, flores florir.
O Sol frio de Novembro arrefecia a manhã duma beleza que fervia.
O corpo torpe entortava-se na cadeira.
Já chega.
Parado, aguardava o inevitável.
Num ponto entre a ressaca e a madrugada esperava ser engolido pelo corpo em que habitava.
Chegará.
Num dia que tarda.
As palavras que escrevemos nas vidas de outras pessoas vão-lhes enchendo os cadernos.
Letras cuidadas, outras tortas, por vezes sujas, outras tantas esborratadas.
Páginas que se vão enchendo, enquanto a memória nos lembra de nos lembrarmos delas.
Uns vão de livro cheio, completo, levam-no bem próximo do coração, outros deixam-no em casa e escrevem a cada dia novas páginas.
Determinadas pessoas têm capítulos, actos, odisseias nos livros de outras pessoas.
Algumas nem sequer sentem que preenchem o livro de uma outra que percorre as parcas palavras e lhes dá volume, intensidade e grandeza.
Estamos todos impregnados nas páginas dos outros.
Todos nos lemos, todos nos transcrevemos, todos viveremos, enquanto as nossas histórias, as nossas palavras, permanecerem nas memórias de um caderno de alguém.
O segredo da eternidade consiste em independentemente do tempo que o nosso corpo fisicamente resistir, permanecermos gravados a tinta da china em vários cadernos passados de geração em geração.
A estrada por vezes é dura.
Repleta de alcatrão estraçalhado pelas intempéries dos pneus.
O caminho exíguo rasga-nos os pés assimetricamente.
Suportamos subidas íngremes e curvas fechadas.
Serpenteamos o monte, com as nuvens no horizonte encobrindo a luz.
O nevoeiro esconde as dificuldades do percurso.
O cume ao longe parece inalcançável, perdido entre os morros.
Trajectos tortuosos determinam a travessia.
O mapa perdeu o rumo.
A bússola aponta para o nada.
Caminhamos em direcção à luz.
Mas lá no topo não vais encontrar o sol. Apenas outro topo.
Agarrou várias vezes no telemóvel com a intenção de responder ao beijo.
Como dizer o que o corpo sabia tremendo?
Mas estava preso, comprimido, contido numa pequena caixa.
A mente dele continha a chave desconhecida.
Lá fora o sol brilhava turvo, perdido entre nuvens que espelhavam o olhar dela.
Queria dançar, mas o espaço não lhe permitia.
Datas trocadas, símbolos perdidos, vontades ignoradas, apenas lhe intensificavam a distância e o desejo.
A clivagem de tempo apenas acentuou a intenção de se tornar elevado com ela.
Com ela, (dentro ou fora da caixa) mesmo encerrado naquela prisão, sentia-se elevado, entronizado.
Com ela, construía-se de alicerces sólidos, enterrados profundamente no solo que os tragava.
Com ela, surgia como habitação cimentada, decidida e robusta.
Com ela permanecia perene e finalmente eterno.
Milhares de anos sentados lado a lado, contemplando o horizonte.
De braços dados, enquanto bebiam um qualquer vidro embaciado pela diferença térmica.
Algures no fluxo contínuo do tempo, três pequenos pontos coincidiram na mesma época temporal.
Abraçados os três pontos formaram reticências.
Reticentes, mas resolvidos a romper com a ruptura.
Trocaram impressões sobre a areia que escorria das suas testas.
Fecharam os olhos e sentiram a luz divina que incidia sobre as suas frontes.
Uma pequena brisa abençoava o encontro casual.
Sempre batalhando os pontos pequeninos esforçavam-se por se manterem à tona do rumo indestrutível do tempo.
Sem braços esbracejavam, esforçavam-se por serem eternos.
A noite tardava em chegar e o cansaço venceria a carne, mas o espírito mantinha-se rígido na sua resolução de ser livre.
A luz abria uma nova página nas suas vidas, uma página tingida em branco indelével.
Não precisava de ser manchada pelas tintas obscuras do passado.
Ambos os pontos sabiam que o hoje acaba hoje.
Mas o tempo, esse nunca acabará.
E dali a milhares de anos, outros pontos coincidirão na mesma sobreposição de vontades, bebendo o mesmo álcool e divagando pelos mesmos recantos onde as primeiras reticências encontraram a liberdade esquecida num livro qualquer lido durante a primária.
Entre as partículas do mundo que nos viu nascer, expurgávamos os medos que nos assolavam.
A boca estava seca por muito que a molhássemos.
A voz gasta, por muito que a renovássemos.
O corpo usado, esbatido por milhares de temporais, esforçava por manter-se à tona do pó.
Sem saber já nos encontrávamos afundados.
Naufragados nos calhaus dos palcos.
Dentro do mundo, abraçados pelos braços eternos dos sons.
Afagados gentilmente pelos movimentos elípticos dos planetas que nos circundavam.
Entre orações de horas.
Erguíamos os braços à lua e jurávamos fidelidade universal.
Sem ver, ouvindo pouco, mas sentindo.
Sobretudo sentindo.
Roçando com o copo na indelével marca da perfeição, e bebendo vorazmente tudo aquilo que nos intensificasse a sensação de subir à supremacia.
Lá estava eu.
Gritando.
Saltando.
Afundando.
Lá estavas tu.
Entre gestos.
Cantando.
Saltando.
Dançando.
Lá estávamos nós.
Entre sorrisos.
Abraçando a noite.
Bebendo a cicuta imortal.
Tremendo perante a convicção que tudo termina.
Tudo.
As letras, os gestos, os olhares, os sorrisos, os sons, as músicas, as vozes, o mundo, o universo.
Até o pó.
"Porque foste formado do pó e ao pó voltarás."
E quando já nem pó formos, mas apenas uma memória universal, algo dentro de alguém relembrará o gesto que ligou esse dia.
Porque tudo é cíclico.
A raiva é um combustível poderoso.
Queima tudo à sua passagem.
Entrega as suas chamas aos materiais que percorre.
Madeira, Pedra, Carne.
Tudo ferve e reduz-se a cinzas com a quantidade correcta de fogo.
Nada permanece.
Palavras são rasgadas, lanças são lançadas, vontades são quebradas.
Onde habita, tudo é consumido.
Fogueira que não termina.
Reside inerte, adormecida, pronta para emergir a um estremecimento dos dentes.
Os maxilares unem-se, a expressão fica rija, a implosão ocorre.
Quando a vires, afasta-te. Não a confrontes ou serás destruído.
Se lhe decidires fazer frente apresenta-te de sorriso.
Ainda não a olhaste nos olhos e já o teu ar se transformou em combustível.
O vírus rarefeito contagiou-te os músculos que se contorcem.
Já lhe pertences.
O ciclo perpetua-se.
Até o mundo todo arder e não haver mais nada para ver.
Enquanto lia e via o corropio da nação, pensei:
"Estamos no Verão."
Pensamento vão.
As estações começam.
Aquelas que fazem queimar os corações.
Cheias de paixões.
Repletas de desilusões.
Elas navegam pelo mar salgado à procura dos leões marinhos.
Bebem dos vossos sorrisos e dos vinhos que lhe põem à mesa.
Já não precisam de deixar a luz acesa.
O calor ilumina a noite de borboletas que lhe preenchem o olhar.
Sim, chegaram as estações, amadas e desejadas pelos vulcões que habitam em nós.
E em vós.
E todos aqueles que estão sós, apenas precisam de por os pés na areia e mergulhar.
Divagar pela pele lassa que corroi e amassa a carne vaga que vai sobrevivendo ao ardor tóxico do meio-dia.
O fervor que expia e transpira a poeira passageira do tempo.
Todos anseiam ficar tingidos, marcados, manchados com a cor do alcatrão e o sabor do Verão.
A pele sabe-me a sal.
Não é que saiba mal.
Mas preferia que ficasse a saber a mel.
E no limbo da água acredito que estou livre de toda a mágoa.
E quando o sol arrefece e sinto a suave brisa do meridiano afagar-me a face penso em ti e em como seria bom passar estas estações contigo.
Mas não o digo.
E por entre os silêncios daquilo que fica por dizer, ponho-me a beber, como um gelado e tento esquecer.
Mas por dentro o corpo fica a ferver, com vontade de te escrever e dizer que ainda vamos a tempo de cavalgar o vento, apreciar o momento e viver o que não foi vivido.
Mas não o digo.
Mas o corpo e a mente sentem.
Mas fica contido.
Encerrado em mim.
Não o digo, mas sabes porque sentes o vento na tua face todos os dias a afagar-te os lábios.
Porque todas as estações e sensações habitam e terminam em ti.
As raízes dos nossos dedos entrelaçaram-se numa árvore única.
A sinfonia da tua respiração unia-se à minha numa simbiose indecifrável.
Metamorfoses no ecrã tornavam-se irrelevantes perante as nossas vozes.
Sonhamos novidades inexistentes.
As nossas mentes observavam com certa estranheza o nascimento do universo.
Jogos de luz e escuridão coabitavam nos galhos das nossas testas.
Sentia a tua pele rugosa passear-se pela minha.
Lá fora os pássaros aninhavam-se nos teus cabelos lisos.
O chilrear do teu sorriso iluminava a noite em tons metálicos.
Ambos presos ao cimento, com os pés ligados por uma resina imutável que percorria os nossos lábios e escorria pelos nossos dedos até cair nas nossas pernas.
Sentimos os movimentos entorpecer.
O sono atingir-nos o corpo qual lança divina que trespassava o corpo dos imortais.
Naquele estado letárgico vi-nos fundidos numa árvore com um único tronco, crescendo numa espiral infinita.
Até que cheguemos ao Sol e ele nos queime a paixão frondosa.
Duas sombras entrelaçadas no alcatrão, separadas pela água calma longe delas.
Divagando em passo lento pela rua, caminhavam de forma leve, sem preocupações como uma nuvem é levada pelo sopro suave do vento no seu céu.
Dois corpos espelhados na terra, entreolhando-se.
Uma das sombras era adocicada, sentia-se o aroma levantar-se do chão e espalhar-se pela atmosfera.
A outra sombra era lisa, presa ao chão como um prego à pedra.
Ambas estavam contidas ao seus espaço.
As sombras trocavam adjectivos doces.
- Bom-senso - dizia a sombra doce à outra.
- Inteligente - dizia a sombra lisa à outra.
Uma das sombras além dos argumentos esgrimia gestos, piruetas, piadas, cânticos.
Esforçava-se para se distinguir de outras sombras que povoavam a estrada em que ambas caminhavam.
Não precisava de tanto.
E neste bailado de palavras permaneceram em silêncio contemplando as estrelas, enquanto as raízes da terra os ligavam um ao outro.
As rodas giravam no asfalto enquanto as curvas sucediam, rasgadas, inertes, impositivas, e entretinham a conversa que fluia livre, jocosa e animada.
Uns dormiam, outros sonhavam e ainda outros sorriam.
Mais uma curva.
Eis que surge um camião que tenta esmagar-nos, mas supreendentemente sobrevivemos.
Ninguém diria.
Contra-curva.
Entre Paris e Odemira o riso instalava-se.
Curva.
Paragem.
Não havia quartos duplos e triplos então nem pensar.
Procuramos pouco.
A pensão fazia-me lembrar a casa da minha avó, com uma vista fenomenal sobre a água, mas com vizinhos pequenos e indesejados.
Almoçamos.
Conduzimos.
E em 30 segundos ganhamos.
Surpreendente!
Ninguém diria.
Trocamos peças por forma a complicar o final. Será a teoria adequada?
Recordamos momentos e pessoas com um leve sorriso nos lábios.
A noite chegou e foi ainda melhor que o dia.
Foi mais fresca, alegre e volátil.
E entre apuros de tempo, aromas nauseabundos e pessoas fenomenais, lá trouxemos uns canecos e uns trocos para casa.
Surpreendente?
Com esta equipa, ninguém diria.
Estava comprimido entre o cinto e a falta da gravata.
A camisa alinhada, pintava em cor azul o fato já antigo.
Curioso, acelerado, cansado e meio sonolento apressei o passo.
Trinta e três segundos trémulos, entre a tristeza e a utopia.
Interrompi, por breves momentos os sorrisos de uma amizade perdida nas memórias de uma mente esquecida.
Apresentei-me gasto mas sorridente.
Por sete segundos os meus olhos tocaram nos teus.
Um pequeno aroma impregnou o momento que ainda hoje sinto no ar.
A minha mente ficou marcada com um ferro de abrasar.
Quente, fervilhante, impressionante.
Esgotam-se os adjectivos que conheço para definir com precisão esses olhos.
As palavras serão sempre incapazes de espelhar aquilo que vi.
Vão soar sempre curtas, imperfeitas, ridículas.
Fico surpreso de como pequenos pontos de tempo conseguem provocar tantas possibilidades e sorrisos posteriores.
Não preciso de mais. Apenas de relembrar aqueles segundos.
Farto até ao tutano dos meus ossos.
Cansado destas quatro paredes que a cada dia me parecem mais exíguas.
Já não sei se gosto da dor ou se abraço a indiferença.
Prefiro a ambiguidade.
A frescura da ternura e a firme crença que tudo vai acabar em bem.
Preciso de um copo.
Ou talvez de um jogo.
Passa-me o corpo.
E o cigarro.
Deita-me fora, usado e gasto num canto esquecido e enfiado num envelope que falta lamber.
Aquela carta que vais ter para sempre na tua gaveta.
Passam setenta e sete anos e sentado sentes que sabias que sozinho sofrerias.
Mas sobrevives.
Rastejando pela rua, mas vivo.
Vês às vinte para as vinte, vinte e dois delinquentes violentarem as violetas vendidas no deserto.
Julgas que sonhas.
Que a batida da música se funde com a do teu cérebro.
Precisas de um copo.
Precisas de um corpo.
Passa-me o cigarro.
Vamos fazer um jogo.
Coloca as peças em posição.
Abre a garrafa e acende a chama que te vai gastando.
Meros momentos mordazes que nos matam.
Cansas-me.
Fartas-me.
Qualquer dia enfartas-me.
Esse mesmo, o do miocárdio.
Já não sou eu dentro de mim.
Preciso de um novo.
Novas paredes, nova pele, novo mundo.
Talvez em Marte.
Seremos todos alienígenas, bebendo água congelada, lá longe na estrela longínqua, quando o mundo desistir de nós.
Quando Deus desistir de nós.
Quando nós desistirmos de Deus.
Já não o fez o mundo?
Está para breve.
Amanhã talvez.
Vou fechar os olhos e sonhar.
Acreditar que depois chegará a minha vez.
Aos três, todos juntos:
Preciso de um jogo.
Preciso de um cigarro.
Preciso de um copo.
Preciso de um corpo.
Preciso de mim.
Continuo a achar que preciso de ti.
Relembro o meu equilíbrio precário no teu abraço.
Prometo que me moldo ao teu bolso.
Prometo que nos tornamos do tamanho de formigas e que, enquanto os pés estão longe, fazemos o que queremos.
Prometo que nunca me cansarei de te beijar.
Tão distante e tão aqui ao lado.
Preciso de um sorriso.
Preciso de um olhar.
Preciso de um abraço.
Preciso de um beijo.
E por muito que fuja, tudo que escrevo acaba em ti e na nossa memória.
Deves andar por Paris, perdida nos jardins etéreos da tua mente.
Esquecida numa catedral dentro do teu corpo e exposta num museu desconhecido do teu subconsciente.
O corpo regressou, a carne encontra-se nua à minha frente, mas a essência não habita o teu casulo.
Encontras-te difusa, dispersa como os grãos de areia da praia.
Aguardas que o mar te lave a alma e te transporte para onde precisas de estar.
Não sabes onde é esse local ainda.
Esperas que o vento da vida te purifique os medos e te liberte das amarras que te prendem à terra que não conheces.
Até que isso aconteça, vais sendo arrastada, sem vontade própria pelas ondas das tuas próprias dúvidas.
Não te apercebes que a tua resposta encontra-se na ponte. Algures entre o mar e a terra, naquele espaço que coabita o céu.
Quanto a mim, encontro-me na outra margem do mar, na outra margem da ponte, à espera que a tempestade te traga de volta ao meu porto de abrigo.
O sol bate na testa e espreme-me um sorriso da pele.
Os meus pés percorrem as pedras aparafusadas do país.
Sinto os músculos esforçados, esticados, puxando os tendões.
O clima acalmou-me os tremores e as dores.
A suave brisa liberta-me brevemente os lábios e torna-me leve.
Escorro pela estrada, livre como a água no rio.
Alicerço os pés nas nuvens, no cheiro da luz que me inunda as narinas de um aroma primaveril.
Estou empenhado em chegar a tempo.
Num tempo em que o tempo não faz mossa.
E sem correr, chego lá.
Visto os calções e começo a correr para a vitória final.
Basta uma frase para me esmagar.
Tornar-me minúsculo.
Como uma letra abandonada entre palavras enormes.
A felicidade é um estado irrelevante quando agarramos na garrafa de álcool.
Sentimos aquela chama de Baco percorrer-nos as veias, queimar-nos o corpo, rasgar-nos as entranhas e implodir-nos o estômago.
Fechamos a mão em forma de punho, e lançamo-nos ao desconhecido.
Tentamos acreditar que aquele movimento vai encontrar uma cara, uma parede, algo concreto, mas apenas esmurramos uma imensidão de vácuo.
Julgando ter identificado o inimigo despimos o casaco, preparando-nos para a batalha.
Ajeitamos os colarinhos, eu e eles, colocamo-nos em posição de ataque.
Levantamos a nossa voz, num grito conjunto, numa vontade idêntica, numa revolta extrema, acreditando piamente que esse som, irá encontrar seres que ouçam o que dizemos.
Aqueles que se encontram ali.
Até que as ondas sonoras encontram uma parede e retornam aos teus ouvidos alcoolizados.
Até que te ouves.
Sim, alguém te ouve.
Tu mesmo.
E nos vemos.
Apenas um.
Tu mesmo.
Aquele movimento violento, não passa de um trejeito desleixado.
Aquela imagem guerreira, não passa do teu próprio reflexo no vidro da loja.
E aquele berro imponente, não passa de uma linha esganiçada, gasta pelo uso.
Sentimos a força a falhar nas pernas e um sorriso mecânico a estropiar-nos os lábios.
Já não somos donos de nós.
Já não te coordenas.
Nas pedras da calçada jaze o bêbado que queria ser gente.
Foi-o até se ouvir frente a um espelho e ver que a sua imagem, era apenas mais uma entre muitas.
E entre o nós e o tu, existe apenas um copo de cerveja no chão.
Cheguei com gotas na minha barba.
Vi-te da outra margem da navalha.
Precária.
Com os dedos cortantes no cabelo encaracolado.
Rasgavas o sorriso como quem rasga a roupa num impulso descontrolado.
O pulsar do teu corpo fazia a terra vibrar.
E eu estou 5 anos longe de ti.
E 5.000 milhas afastado desse poder.
Caminho com equilíbrio por cima do mês tentando manter-me no fio de varanda.
Como o primeiro cigarro do dia.
Tremo num arrepio quente que me traduz a incerteza do dia.
Agarro no casaco e tapo os teus lábios finos.
E na penumbra temo mexer o meu braço e acordar-te.
Abre as cortinas.
Sente a luz mágica envolver a tua pele nua.
Um dia como este uma vez por ano, já é suficiente.
Larguei-te os dedos à porta.
Uma lágrima escorreu no Adeus.
Percorri a minha memória tentando recordar um olhar que me afagasse o estômago.
Mas a decadência tragou a esperança.
Remeti-me ao que sou.
Minúscula larva.
Pó queimado.
Desliguei-me da máquina que me colocava em contacto com o mundo.
Neste momento sou frio, distante e insensível.
Faz parte do processo de crescimento até chegar o momento.
É neste desalento que decido.
Não quero amar.
Quero viver.
Não quero voar.
Quero sobreviver.
Não quero chorar.
Quero apenas chegar a casa.
Abrir a porta e largar-te a mão.
Mas até chegar lá vou conduzir.
Vou-me distrair.
Embater nas paredes que encontrar.
E enquanto sonho que te agarro a mão, vou com um sorriso desfazer-me no alcatrão.
As águas sobem, mas a surpresa não existe.
As lágrimas enchem a estrada, mas não se sente.
Corações cauterizados, pulmões afectados, narizes assoados.
Parados olhando o infinito, pensando que somos pó.
O nevoeiro enche-nos a pele de gotas.
Grossas e gordas e tontas.
Assimetricamente pintam-nos o corpo de uma cor acinzentada.
A ambiguidade vai ganhando machadada a machadada a guerra pelo pensamento.
Enquanto choramos, o líquido salgado que libertamos, mistura-se com o que cai do céu.
Por entre o breu, divagamos e dissertamos, denegrindo a dicotomia dual que nos define.
A nossa essência é o nosso carisma.
Mas no fundo o que nos resta é meramente o abismo.
E quando caímos (e todos caímos) o que nos resta é viver na chuva, no nevoeiro, na pele e nas lágrimas daqueles que nos recordam.
Seremos turistas do mundo, repartidos pelos milhares de pedaços estilhaçados nas memórias dos que nos amam.
Até sempre.
Gastei muito tempo sem colocar os meus dedos no teclado.
Sonhei com o regresso, com o cheiro das páginas por abrir coladas umas às outras.
Teria de ser um retorno implosivo.
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O oxigénio tornar-se-ia combustível para a mente.
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Teria de rasgar o Universo em mil pedaços.
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Teria de estilhaçar letras por todos os recantos das frases.
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Teria de resolver as dúvidas da alma com o pragmatismo genial que se me desconhece.
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Teria de ser contraditório e pintar parvoíces com cores puras.
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Teriam de se ouvir trovões explodir à passagem das palavras.
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Os rios teriam de se prostrar à minha passagem, invertendo o seu rumo à catarse.
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Catástrofes iriam aclamar a minha chegada, curvando-se em contemplação.
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Desastres iriam assolar os desertos.
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O Sol perderia o seu fulgor e espelharia um brilho trémulo, metálico e rudimentar.
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Nuvens fariam ginástica acrobática e sincronizada formando cascatas fofas de algodão.
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Os sonhos teriam de renascer verdes e viçosos.
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Será que o faço?
Ou será que vos maço?
É agradável olhar pela janela e ver a cidade tão morna.
Por vezes preciso do nevoeiro para me interiorizar com o meu sorriso.
Necessito esporadicamente da ambiguidade de um dia nebuloso e cinzento para redimir a minha culpa.
Nego que ame a chuva.
Apenas a sinto mais suave quando alimenta a minha pele da sua doçura indelével.
Reafirmo o meu prazer quando o vento me abraça com os seus membros invisíveis.
Sinto-me amado.
O sol não tem esse efeito em mim.
Aparenta ser luminoso, quando o que faz é apenas manchar-me de escuridão.
Faz-me suar, bocejar, ansiar por outros locais, mais simples, mais frescos, menos pesados.
No Inverno é bom divagar pela praia e sonhar em sentir o carro manchado pelo vapor dos nossos corpos.
Chove.
Chove mais.
Chove em mim.
Hoje o sol enamorou-se da chuva.
Houve casamento da viúva.
O adágio popular assenta que nem uma luva à cidade que não casa.
Nenhum jovem lhe deixa o coração em brasa.
O único amor que teve, morreu no breu da tempestade.
Na sua tenra idade, sentiu o arco-íris nascer no seu coração, apenas para o Inverno lhe molhar o pão que queria comer.
Borboletas no seu estômago que se tornaram letras do âmago da dor.
Tudo por causa do amor ao mar.
"A vida será o que for" - diziam-lhe.
Vinham-lhe à mente os abraços salgados à sua costa, que esvoaçavam baços, escassos, como tristes fados à deriva.
Afogada em lágrimas subiu ao monte.
Fez jorrar uma fonte dos seus olhos.
Encharcou a sua saia de folhos.
Viu o céu pintar-se de cores.
Viu o seu enfeitar-se e sorrir.
Diz-se que morreu de amores.
Deixou as sete colinas desfeitas em pó.
E como a mulher de Ló, tornou-se em sal e pedra, perene e eterna.
Do cimo da elevação, permanece com a sensação que o seu amor irá renascer para ela voltar a viver.
Eu vou queimar tudo o resto, tornar-me fogo no processo.
Rasgar a roupa, chamuscar a pele, sonhar que presto, ver-me do avesso.
Pensar que sou mais do que sou, elevar-me aos céus, se apenas a loucura me deixar.
Vou descobrir os véus, enquanto a tortura não me largar.
Fingir-me rei do além mar.
Mergulhar na solidão que nunca ninguém tem.
Apagar-me a luz, fechar os olhos e ver a fogueira em mim minguar.
Sentir o torpor nos músculos, encerrar o tecto, ver tudo preto.
Sem pé na água, sem fé no mundo.
Com o coração pintado da cor da mágoa vou nadando até ao fundo.
Agarrei na navalha mais afiada e rasguei-me em três.
Senti a minha pele separar-se da minha carne e deixei a Terra beber o meu sangue.
A pressão na garganta exerce força similar no meu cérebro.
O meu fígado comprimiu a minha vontade.
Doentio dizem eles.
Apenas dentro da minha mente digo eu.
Senti a água percorrer a minha cara e a cada lágrima um grito surdo esmurrou-me o âmago do meu ser.
Máquina estranha que sou, pensei eu.
Louco pensaram eles.
O choro não me lavou a mente.
As cinzas da minha pele levantaram voo e o vento levou-as a elas e ao cheiro a carne queimada.
Talvez o fogo me redima, me crie novo, me faça renascer.
A faca cortou-me os nervos, a água sujou-me a carne e o fogo lavou-me a alma.
Sonhei com o teu toque.
A tua pele na minha numa santa simbiose sentida.
Acordei sozinho.
Solitário num quarto banhado pela penumbra matutina de um dia ventoso de Verão.
Estiquei-me no tecido tentando alargar a minha massa num ar rarefeito e pesado.
Senti-me esforçado, corroído pela ferrugem da vivência quotidiana.
Levantei-me e vi-me.
Barba seca, crispada e arrogante levantava-se da minha pele.
Passei a mão por ela para sentir o tamanho da tarefa que teria pela frente.
Diria que Hércules não se sentiria rogado.
Voltei a cair na cama.
Envolto numa aura de nevoeiro que se abatia sobre a minha mente.
Viajei com os pés de Hermes até ao Olimpo.
Vi-te lá.
Provei-te dos lábios a ambrósia divina, apenas para ser rechaçado para a Terra e me encontrar no mesmo quarto, num equilíbrio precário entre a realidade e a satisfação.
Sinto-me vago, sempre seco, saboreando o som suave do teu ser.
Esqueço-me do mundo e perco a noção do desejo que vive entrelaçado na tua pele.
Tragado pelo peso do fardo que carrego, afundas-me.
Apenas o teu olhar me consegue fazer levitar e estraçalhar o medo que escreve seguro de si uma pauta soturna.
Ouço e estremeço.
Beijo-te e temo.
Os meus pés ignoram as regras gravitacionais e são impelidos para a tua luz.
Bebo dela.
Sacio-me com ela.
Inundo-me.
A música do medo olha-se ao espelho, pinta-se em cores coloridas e transforma-se em sonata de alegria.
Ofusquei-me na tua luz e inebriei-me no teu som.
Sinais dos sentidos.
Tudo escrito com a letra S.
A borboleta deslizava pelo ar fresco de Abril.
Por momentos julguei pairar como ela sobre o Tejo, enquanto passávamos pela ponte com suporte em forma de "H".
O teu olhar viajava a meu lado.
Num silêncio contemplativo, observava a cidade intermitente que se desenhava à minha frente.
Imagem utópica e descaracterizada.
Parecia transposta de um quadro impressionista, com pequenos pontos pintalgados na tela do horizonte.
Senti a tua mão no meu cabelo, afagando como se sentisses a superfície de um tapete.
São essas pequenas sensações que me provocam sorrisos constantes quando penso em ti.
A loja que troca o teu nome, por um mais internacional.
Os pequenos trejeitos imperfeitos.
O teu olhar com aquele brilho de ânsia pelo Verão.
Ao divagar pelo horizonte, senti que aquela recta deveria durar a eternidade.
Ambos de mão dada, navegando por cima de um rio que flui eterno, com um destino lá longe surgindo em formas geométricas assimétricas.
Navegava a teu lado pelo resto da vida.
De larva amorfa e repugnante, fizeste-me borboleta que esvoaça pura pelo caos que corrompe.
És a minha catarse.
A minha epifania.
O final feliz.
Da voragem negra que quase a engoliu surgiu ele, anjo puro, pintado de veneno doce.
Quando a vontade era eclipsar-se, tornar-se nula e inexistente, soube vê-lo ao longe acenando com a eternidade.
Sentiu saudades do futuro.
Sentiu saudades do que iria viver.
Sentiu saudades do que sentiria.
No passado partiu-se em vários pedaços que tornavam o ar que inspirava mais rarefeito e pesado.
Pequenos somatórios que tornavam o caminho mais tortuoso e íngreme.
Vários nós na garganta e no estômago espremeram as cascatas de água que jorrava.
Sozinha no meio da escuridão ela sentia a cabeça a pender para o chão. Ansiava pela chuva que lhe arrefecesse o pensamento.
A tempestade desconhece o significado da palavra luz.
Caminhava pela solidão voraz e devoradora.
Procurava a mão dele.
Não a encontrava.
Era um caminho que tinha de fazer sozinha.
Lá longe, em meses incertos, encontrava-se o sol banhando o Mundo Novo que a esperava.
E às portas da penumbra o anjo a esperava.
A borboleta que abençoou o nosso beijo.
Recordo o teu cheiro no meu casaco.
Suaves memórias que me aquecem debaixo da flanela.
Fui fútil.
Gelados em dias gelados.
Mastigados e saboreados.
Trocados à nascença.
O meu sentimento de pertença.
Dedos trémulos e enferrujados.
Sobrepujados pela violência dos dados.
Dias cinzentos em que não te vejo.
Dias negros em que não te beijo.
Rima ridícula.
Mas o que sinto deixa-me tonto.
E ao mesmo tempo sinto-me pronto.
Giro à volta do teu ponto e torno-me outro.
És o meu porto, navio, fio e pavio.
A poesia sabe sempre melhor temperada.
Molhada com a lua, apreciada com a chuva.
Amada, atarantada.
Misturada com lama para completar a dança.
E aí é só encher a pança.
Não esquecer de colocar acentos nos assentos.
Soprar os ventos da amargura e navegar sem parar até à loucura.
O sol era duro, ríspido e sem questionar incidia sobre o solo rústico.
Pequenos pedaços da terra absorviam a intensidade e revoltavam-se contra a árvore, comprimindo as suas raízes subterrâneas.
A árvore esforçava-se por suportar, mas as investidas eram decididas e secas, tornando a sua pele crespa e trémula.
O sol e o solo sobrepunham-se à sua certeza.
A árvore definhava.
Tornava-se fraca e cinzenta.
Quebradiça e vazia.
A criança observava a violência da cena, mas na sua inocência achava tudo natural.
Desconhecia que nas imperfeições se centrava a sua perfeição.
Aproximou-se sem medo do sol que queimava, do castanho que a tentava engolir e abraçou a árvore.
Dos galhos despidos surgiram pequenas pétalas luzidias.
O tronco deixou de ser oblíquo e tornou-se perpendicular ao chão que o pressionava.
As raízes estenderam-se e encontraram uma cascata de água límpida e cristalina.
E das folhas surgiram pequenas gotas de orvalho que arrefeceram a testa da criança, já queimada sob o sol abrasivo.
A criança sorriu e abraçou com mais força a árvore.
A árvore respondeu, tornando-se frondosa.
Já pequenos pássaros poisavam nos troncos que brotavam da coluna vertebral.
Frutos caíram na terra e fizeram nascer flores das cores do arco íris.
A criança não parou de abraçar a árvore.
E a árvore não deixou de revigorar-se.
Ambos fundidos numa simbiose que fez renascer o ecossistema que o Sol insistia em dilacerar.
(Já abraçaste uma árvore hoje?)
Debaixo dos teus lábios com sabor a baunilha, sinto-me protegido dos males que me apoquentam. Desfaleço e torno-me torpe. Migro para paisagens mais quentes e subo os ares vespertinos da calamidade. Reparto-me em milhões de pequenos pedaços de pele que penam por provar a perfeição. Torno-me trémulo e tento tactear o terreno que transponho. Verto verbos vindos do vendaval que me viola. Sinto-me semente por nascer entre silvas que me sussurram sentimentos de saudade. Creio que carrego a memória dos teus braços. Fardo leve que me escorrega para o regaço. Penso na onda que assola a praia. Magoa a areia, viaja para outras paisagens e retorna à mesma praia. Relembro a aragem glaciar longínqua que voou para me afagar a face fria. Prendo os meus pés à terra que me criou. Sempre existente. Sempre presente. Sempre me aguentou. Todos os elementos que nos circundam neste frágil ecossistema, confluem no momento em que cruzei o teu olhar com a semi-recta da minha existência. Tudo me torno nos teus lábios. Sinto-me tudo no teu corpo. O céu e a lua cinzenta, contemplam vazios de emoção a suavidade da noite. Tudo começa por uma letra. Percorremos uma linha desde o início. Acidentada, não linear, não circular, não definida, espaçada por ilhas sem conteúdo, mas que existe num plano invisível. Uma linha iletrada que sempre termina num ponto. Ou raramente em reticências ridículas...
Fumava o cigarro que não inalei, na noite que não vivi, pensando no beijo que não te dei, enquanto sorria para ti.
Agarrei no copo repleto de ar que expirava e bebi a mistura oxigenada.
Soube-me a algo inquantificável na elipse da vida.
Somos apenas formas imperfeitas em separado.
Mas juntos somos algo mais.
A sombra afastava-se, afagada pelo gélido tremor do vento de Inverno.
Fechava os olhos ao atravessar a estrada.
Relembrava que tinha expirado, sem esperar que os dragões queimassem de novo o coração negro em cinzas.
Caminhava impunemente num império falso, destronado, destruído e solitário no silêncio da música.
Durante todo o tempo a vontade da sombra foi abraçar o vulto atemorizado a seu lado e dizer-lhe que tudo iria correr bem.
Não havia necessidade de palavras com o olhar esguio que deslizava pela carne esboroada da sombra.
Sombra e vulto não se cruzavam, mas estavam lado a lado.
O piano fazia a sombra arrepiar-se.
Estamos a meio caminho, pensava no seu cérebro pregado ao chão.
O vulto não definia o que pensava.
Perdido nos seus medos e inseguranças.
Bastava agarrar a mão da sombra para se encontrar.
A sombra expandiu-se, tornou-se soberba, tentou retomar o trono perdido.
O vulto com medo regrediu, perdeu-se no seu sonho.
Estavam a meio caminho de se tocarem.
Fingindo a vida e fingindo-se.
Numa voz rouca, vestida em t-shirts de cimento e casacos que protegiam contra as ondas que assolavam o Mundo em colapso.
Despediram-se secos, como a chuva que tocava o vidro do carro.
Vulto e sombra.
Ambíguos na noite.
Deitados na cama.
Debaixo do candeeiro.
Moendo o passado.
A meio caminho um do outro.
A meio caminho deles mesmos.
Rasguei o alcatrão ainda húmido pelo orvalho frio da manhã.
Sentia-me atrasado.
Mas não estava.
Os pés batiam desfasados e corpo sentia-se sem a cadência própria do bater do coração.
Entrei e o ar condicionado pressionou-me a temperatura corporal.
Estava com a confiança ligeiramente acima do que usualmente o espelho definia.
Sentia que o meu corpo estava em mim.
A minha essência estava lá, dentro daqueles casacos e das roupas de Inverno.
Tentei que ela não fugisse quando te vi.
Entrecortada pelas portas do Santíssimo.
Pentados flutuavam, cachecóis aqueciam e corpos passeavam-se pela arena.
Olhos digladiavam-se por um pouco de atenção.
Sussurros que não se ouviam e vozes perdidas na atmosfera.
Ouvia-te ao longe, como um relâmpago num dia de tempestade.
Perdido na imensidão de criaturas desconhecidas, que sempre conheci a minha vida toda.
Tu estavas lá entre um panado e as bolachas.
Voraz.
Abstraída.
Esquecida no teu mundo.
Sorrindo e deixando a beleza fluir a cada dentada.
Não há necessidade da profundidade quando a simplicidade está tão patente.
As palavras fluem mais rápidas que os dedos.
E ainda há tanto a cantar.
Porque o concerto vai começar agora.
Só basta carregar no "Play".
You make me feel funny.
Árias de antagonismo acentuadas por assimetrias.
Belas bandeiras de banal bravura.
Candura coloquial que condensa a catarse.
Definir a dor com a dureza do destino.
Estigma eliminado.
Financiamento fútil e fugaz.
Grandeza Ignóbil.
(A assistência faz um som mudo)
Indevido Gosto.
Jupiter é jovial.
(Não sou estrangeiro)
Lamentações livres.
Mentes maquiavélivas e mordazes.
Nitroglicerina nominal.
Ohhhhh...Outros ouvirão o óleo.
Palermas provocados por práticas planeadas.
Quem quis qualificar o inquantificável?
Renegar o renascimento.
Supremacia da solidão soberba.
Tenazes tentativas de tirar a tristeza.
Uivar a união à lua usada.
Vinte violentas valquírias e violetas violadas verão a vingança.
Xadrez em Xisto, ou XXX.
Zurrar ao zorro.
Ainda havia luz na terra quando te vi atravessar a rua vestindo um sorriso jocoso.
Mantiveste-te separada e congelada enquanto tentava derreter o gelo inicial.
Mas o vento da casualidade arrefecia-me os pés.
Carregavas nos teus braços o peso da vida eterna.
Livros que continham o discernimento da existência humana.
Sorriste com um qualquer comentário parvo.
Em ti abriam-se as páginas do destino.
A luz convergia sobre a tua pele, deixando uma leve tonalidade cor de mel, gengibre e ambrósia.
Tentava libertar-me e esgrimir o fio de metal que sou.
Tu sorrias cada vez mais, tornando o vendaval quente, que me aquecia o corpo, como uma manta num dia frio.
Senti o peso das tuas mãos nas minhas.
A densidade do conhecimento vergava a minha coluna já diagonal.
Surpreendi-me com a tua capacidade de suportar em silêncio.
Abnegação uns diriam.
Parvoíce outros.
Creio que me encontro a meio caminho entre os dois grupos.
A globalização acentuou-se na nossa conversa.
Conversa que partia do Negro no meu nome e acabava no "Muito Bem" indiano.
Entre risos e sorrisos, senti o suave sabor da saudade submetendo-se ao silvo sentido do sentimento solitário.
Um sabor que me aquecia os lábios em antecipação.
Estava na hora.
Com a chegada da noite voaste para a Alameda.
Espero que a tua migração te volte a trazer ao mesmo local, numa outra época e quem sabe numa língua distinta.
Sorriste e eu sonhei.
Olhaste e eu ouvi.
Falaste e eu forcei.
Do desejo nasceu a vontade de aprofundar a tua pele.
De te desfolhar como as páginas de um livro ainda por ler.
Molhar as pontas dos dedos em saliva e ir descolando as páginas desconhecidas sob as minhas mãos ávidas de conhecimento.
Intimidavas-me.
Conseguias demonstrar-me os efeitos homeopáticos da ignorância e com uma destreza impressionante de ancas, fluir pelos ares pesados e acidentados da capital.
Eras paradoxal.
És paradoxal.
E eu sempre serei complexo.
Entre luzes tentei disfarçar o que sentia, calar as vozes quebradas no meu corpo que ouviam a rejeição.
Não há culpados.
Apenas sentimentos que se esfumam pela porta fechada.
Abandonados à perpétua solidão.
Num quarto escuro a leste do paraíso.
Não lhe mexas, porque parte.
É feito de porcelana fina.
Se lhe tocas, desfaz-se em tinta da china.
Sorris porquê?
Não sai nada de recente deste teu autor.
Feio, gordo e fermentado em bolor.
Hoje escrevo poesia avulsa, como as páginas do teu caderno que pulsa pelos teus dedos pintados a vermelho vivo.
Tanta página que se perde na memória.
Textos que dizem o mesmo que o jogo da Glória.
Começas no Ponto A, lanças o dado, segues o teu fado e acabas no Ponto B.
Por Ponto A entenda-se o momento do nascimento.
Por Ponto B subentenda-se a sorte da nossa morte.
Perdi a vontade de jogar.
A necessidade de inspirar o ar.
Soa-me tudo igual.
Já vi este filme em qualquer lado.
Banal e preparado.
Repetido.
Já vivido.
No entanto, cada palavra brinca com a tua mente de uma forma distinta.
Como que pinta o teu ser de um líquido fluorescente que se torna vivente.
Para onde vou?
A poesia não tem rumo.
Nem tu, nem eu, nem o infinito que voou e deixou-nos aqui abandonados.
Maltratados e sós.
Vou apanhá-lo. Não te preocupes.
Pós apoiados nos pés.
São exactamente dez da manhã.
É hora de alimentar a esperança vã.
Mas entretanto, não mexas na arte.
Porque parte.
Desisto de sonhar.
De fechar os olhos e imaginar no não concreto.
Desisto de acreditar.
À minha volta a atmosfera incendeia-se e a minha pele começa a queimar.
Enquanto ouço o crepitar da carne, abro bem os olhos e observo o inferno de frente.
Camada a camada o corpo começa a ceder.
O meu coração treme perante a ansiedade da morte.
O tremor do medo.
Aquele que sentes quando te lanças de costas no desconhecido.
Sem sentido na vida os braços pendem para baixo.
Sem motivo que me faça lutar pelo inacreditável.
Sem alvos que objectivem a minha existência.
Cheiro a carne queimada.
Os milagres abandonaram a minha alma à muito.
Tornei-me mero amontoado de ossos que geme sem língua e não vê o que se tornou.
Até retornar ao pó, pois dele fui tomado.
Deixava nas tábuas de madeira o rastro de água abstracto perfeito.
Uma pintura de diferentes tonalidades de castanho que desaparecia a cada momento gasto do tempo seco.
Ele contemplava aquelas marcas evaporar.
Relembrava os sorrisos interiores, a pele arrepiada e a vontade inexprimível de a conhecer.
Mas sentia que assim como a água desaparecia do soalho, a sua ligação virtual esvanecia-se pelo calor do seu próprio carisma.
E enquanto escorregava pelo som queimado da pele teve a SUA epifania.
Um relâmpago sináptico que o fez perder-se nas memórias.
Tentou mudar as palavras escritas na Terra, mas não conseguiu.
Já tinham sido enviadas.
E ficou com aquele travo amargo na boca de quem poderia ter feito mais, mas não fez porque escreveu demais.
A partir daquele momento, as suas frases seriam assertivas, directas e sem conter qualquer emoção "exagerada".
As luzes distantes da cidade pareciam-lhe inócuas e indecisas, como que escondendo o pecado nas suas intermitências melancólicas.
A cidade desfigurava-se dentro daqueles tons de luz.
Colinas desenhadas com o esquadro de algum engenheiro mais iluminado.
Ao aproximar-se delas, o seu sangue era governado pelo silêncio, fluindo com vagar pelo corpo torpe e enferrujado.
Já se encontrava debaixo das centenas de estrelas que povoavam a cidade.
Meros candeeiros que dispersavam os medos pelas ruelas, lavando as mãos da escuridão.
Não tornavam o ambiente belo, mas pragmático.
Não eram festivas, mas eram directas e concretas.
Não eram perfeitas e falhavam de cem em cem metros.
Vestiam as paredes de cores metálicas e amareladas.
Um amarelo feio que por vezes a olhares incautos e mais molhados parecia esbranquiçado.
Os ouvidos já não tiniam.
A luz já não gritava.
Estava no ponto de intersecção da rua proibida.
Olhou à volta e procurou a auréola.
Não a viu.
Voltou para casa.
E sobre a cama ondulada guardou solenemente, o profano daquele resquício de luz que roubara do sol que nascia e desdenhou da luz de presença que se acendia quando o seu corpo ocupava o espaço entre a varanda e a porta.
Construções de algodão no horizonte levantam-se.
Construções fingidas.
Consciência cauterizada que proclama eternidade.
Consciência fingida.
Corpo que se move esquivo pela multidão que se acossa por um copo de vinho.
Corpo fingido.
Sonhos que se esvanecem e escapam por entre os dedos secos.
Sonhos fingidos.
Expectativas voadoras e azuis, mas voláteis e fugazes.
Expectativas fingidas.
Poeta que se agrupa contra o inquestionável.
Poeta fingido.
Mistura estranha que se acumula no meu corpo castanho.
Mistura fingida.
Universos que dançam na presença de olhos com oito tentáculos que mordem.
Universos fingidos.
Construo a consciência à medida que o corpo vai sonhando que o poeta em mim se mistura com o universo.
Todo este império é feito de ficção.
Fingir faz bem à alma.
Pretendo escrever algo simples e suave como o caminho de regresso a casa.
Livre como o vento que te lava a face morna.
Um objecto que corre e escorre pela cascata do casual.
Palavras frescas, lavadas e prontas a consumir.
O sol por vezes espreita e um pássaro tricolor chilreia no horizonte.
A corrente de memórias e pensamentos leva-te devagar a um jardim pintado de verde e rosa, cores às quais simplesmente não prestas nenhuma atenção.
A noite aproxima-se e vês num céu azul metalizado uma lua ainda a acordar do dia.
Um pedaço semi-circular que banha a atmosfera de um sabor cálido e macio.
E bebes.
E mergulhas.
E ficas sob pesadas nuvens naquela noite que te afaga.
Existem espaços de tempo que ficam cravados na memória como pregos na parede.
Enquanto olhava para o horizonte da minha mente, sentia a interminável sucessão de momentos que coabitavam com o meu frágil organismo externo.
São muitos.
Não os quero perder.
Dias soturnos, profundos, imprecisos, ambíguos, mas que deixam uma marca indelével, um ferro abrasivo que me queima a pele e a carne.
Este foi um deles.
Pequenos e velozes minutos banhados a álcool e suor que se misturaram na atmosfera caótica eliminando pensamentos e tornando o abstracto real como o pé que me pisava.
Saltos internos e exteriores que faziam a terra vibrar de pressão.
Algures na corrente do tempo virei-me e tentei aperceber-me do que ocorreu naquele sol que se punha.
Recordava.
Sentia o cheiro a tabaco fluindo livremente no ar.
Sentia o torpor dos músculos e as dores nos pés.
Sentia os olhares furtivos procurando alguém.
Um coelho num palheiro.Ou então Helsínquia na multidão.
O cansaço já me afectava a mente.
Lembrava.
Memórias palpáveis com forma de nuvem almofadada e sabor a Super Bock.
Ri, sujei as sapatilhas, dancei, saltei e regressei.
Mas o teu olhar de turista temporária será aquele que perdurará nas viagens mais longínquas dentro de mim.
(Isso e o António a argumentar ferozmente com o vendedor por mais uns volumes.)
Pintei o céu em círculos de nuvens esbranquiçadas.
Círculos imperfeitos, deixando margem para o sonho.
No centro do oceano estava pairando de barriga para cima olhando o que tinha pintado.
Uma pintura abstracta e no entanto cheia de sentimento.
Diletava ao sabor da maré naquela água morna de Julho.
Provava a água salgada nos meus lábios gretados.
Sabia-me a uma moeda de níquel.
Enterrei-me na água e senti-me num outro universo, como se a água fosse um portal para um novo mundo em que tudo se define com o nosso movimento.
Mas num mundo tão perfeito, sem sons estridentes, também não conseguia ver com clareza o negrume cáustico que nadava à minha frente.
E então submergi da sopa que me cozinhava.
Senti o sol secar-me.
Bater-me com os seus braços luminosos.
E aí naquele momento, enquanto inspirava o oxigénio que me fazia fluir, senti-me bem. Completo.
Em sintonia com a música que saía das colunas de um qualquer carro na estrada.
"É aqui" - pensei eu.
Este é o meu elemento criativo e primitivo.
Não morras.
Não me deixes divagar sozinho neste terreno por cultivar.
Não me largues a mão.
Não fujas para onde ninguém vivo consegue ir.
Não saias pela porta.
Não te afastes.
Não julgues que serei capaz de suportar a tua viagem.
Não penses que o Mundo vai parar por ti.
Não vás.
Não me deixes lacrimejante e saudoso.
Não termines o que ainda nem sequer começou.
Não permitas que a foice negra te rasgue a vontade.
Não deixes o vulto tingido a preto levar-te a carne.
Não vás, por favor.
Não me faças isto.
Não desistas de sentir.
Não me deixes assim com as mãos em sangue.
Não me negues o desejo de te ver sorrir.
Não vás, POR FAVOR!
Não!
Não!
Não!
O tempo está abafado.
Sente-se o ar pesado como uma peça de metal que envolve as nossas costas.
A cabeça meneia. Pende para baixo.
Não sei o que escrever.
Faltam-me as palavras.
Não as sinto percorrerem-me as veias hoje.
Parece que se esqueceram de mim.
Nem sempre nos sentimos bafejados pelo sopro divino.
São dias que nos fogem e escapam como areia por entre os dedos.
Dias que não voltaremos a agarrar.
Perdidos na imensidão da praia do tempo.
A corrente da água permanece insegura e incerta. Devorando rochas sólidas e levando nos seus braços recorrentes os dias de outrora.
Guarda-os dentro dela.
No seu estômago de corais e monstros marinhos.
Os dias ficam misturados naqueles que hão de vir. Cabe ao mar trazer os novos grãos.
Mas tens de ser tu a agarrá-los.
Desfazes-me a pele em desejos de mil cores.
Tornas a minha respiração lenta e pesada como a gravidade.
Impões respeito e medo.
Produzes vida e oxigénio.
Arte e Morte.
Salpicas o mundo com o teu dedo divino, que sabe a luz.
Eliminas com um simples brilho interno qualquer olhar incauto que se cruze contigo.
Por vezes entras em excesso, preso no centro do meu universo.
Queimas peles desprotegidas, e espalhas com parcimónia e misericórdia o teu poder quente pelos corpos de quem percorre o teu domínio global.
Tornaste-te omnipotente, omnipresente, ciente que controlas tudo o que rodeia e que tudo o que te rodeia gira em torno de ti.
Levantaste o nariz e sentiste-te central.
Todos os corpos estavam alinhados postados em adoração a ti.
Queimando o corpo.
Escurecendo a pele.
Apenas eu virei-te as costas e fechei-me longe da teu braço extenso.
Cerrei os cortinados e enclausurei-me na penumbra da frescura do meu casulo.
Pensava em ti. Lá longe. Explodindo o teu núcleo em mil pedaços.
Estavas a um passo da perfeição.
A um momento da sublime realização.
Estancaste o corpo a medo.
A luz pigarreou e alguém na penumbra tossiu.
Lá fora relâmpagos subterrâneos intercalavam-se aos espirros epilépticos
da lâmpada sobre ti.
Temeste ser tragado pela ambiguidade.
Pelo espelho revias que não podias renovar a tua essência.
Era uma imagem fragmentada, difusa, incapaz de te transmitir a segurança que desejavas.
Sem aviso prévio, começou a chover. Um aglomerado de cristais de gelo e água precisamente colocados entre a tua cabeça e o tecto do metropolitano.
A carruagem olhava para ti atónita.
Um ser vestido de fato, com uma nuvem por cima da sua cabeça. Uma novem enervada e violenta que cuspia água e trovões pequeninos que faziam eco no silêncio da luz intermitente que banhava o vagão de transporte.
Com o cabelo molhado e os lábios embebidos numa mistela de suor, saliva e água pluvial, sem perceberes o que se passava, aguentavas-te com os olhares perfurantes das pessoas que estavam na penumbra e com a água que marcava a tua desistência da luta pela perfeição.
"Keep on dreaming brother.
My Killer.
My Lover."
Despertas o poeta que há escondido em mim.
De uma caverna obscura da minha alma, lá surge ele, divino e criador, lançando odes aos teus feitos.
Acordas-me o ímpeto de cantar a tua eternidade. Tornas-me fingidor.
Fazes-me descrever que dos teus longos cabelos lisos largas versos em piruetas que vão suavemente esvoaçando como borboletas.
Sabes bem que do teu corpo emanam rimas e geras sonetos com a tua voz.
Poemas perfeitos que elaboras enquanto passas.
Mas não os ouves.
Não me queres ouvir declamar. Escrever-te.
E eu da janela fico contemplando o que nunca terei e esperando que olhes para mim.
Mas tardas.
E a espera torna-me medroso e minúsculo.
Fazes-me conter as letras e as frases.
Fico sem conteúdo. Como se tragasses a minha vontade.
Mudo e seco.
Sem palavras a mais para te dar.
Emergia das entranhas do submundo.
Sobre mim pintava-se um céu azul renascido.
No seu espaço desenhavam-se umas suaves e translúcidas nuvens brancas que tornavam o quadro ainda mais primaveril. A brisa soprava sem muita convicção, mas conseguia fazer-se sentir na pele dos corpos que acordavam para o dia que se levantava perante eles.
Via o rio ligar as duas margens separadas pela pangeia divina. Mecanismos de paz interior desenrolavam-se no meu corpo adormecido, enquanto as ondas de choque de um barco se faziam ouvir. Elas libertavam um aroma característico. Um cheiro a maresia suja.
Gaivotas livres pousavam nas colunas que outrora demarcavam os limites da cidade humana e o princípio do líquido que em todos vive.
"Que cenário impressionante!" - pensei eu enquanto deambulava sonolentamente para o trabalho diurno.
Eram imensas as tonalidades de verdes molhadas pelo céu azulado que aquecia a cada murro seco do relógio na parede do tempo. As árvores escalonadas por casas faziam relembrar o caminho para a perdição.
Homem e natureza de braços interligados percorrendo as encostas.
Um triângulo de rio. Um sim pintado de divino. O etéreo e o eterno. O global e o perene.
Sim, o equilíbrio precário vive em ti. Sempre prestes a desmoronar-se, mas sempre vivo e em pé. Assim como eu.
Aquela mistura de cheiros, sons e luzes injectou-me a energia que necessitava para ultrapassar o meu estado letárgico e acordar para mais um dia de existência.
Algo dentro de mim honrou o Deus que iniciou o caminho para o homem erigir o universo a cimento concreto.
Inspirava o ar manchado com a cor da imperfeição.
Sentia-se conspurcado pelo ambiente sujo em que se encontrava.
A sua pele ia ganhando uma nova cor.
Tinha medo que à medida que respirava, o ar impuro se misturasse com o seu sangue e o transformasse num daqueles doentes.
Pessoas sem objectivo focado.
Com uma existência absurda.
Diria mesmo ridícula.
Dentes desligados da boca, mãos pendentes e amorfas, linguagem encavalitada e incompreensível.
Carne morta.
Alimento para ser lançado fora.
Sangue para ser derramado.
Páginas para serem rasgadas.
Evitava tocar no que quer que fosse.
No que fosse concreto.
Mas bastava estar ali. Aquele espaço geográfico era suficiente para lhe transmitir a ideia que definhava.
Sentia-se incomodado e distante do mundo.
Era o ar. O maldito ar.
A digestão daquele oxigénio, tornava-se difícil. Parecia que navalhas se introduziam nas suas narinas e lhe iam desfazendo o aparelho respiratório, órgão a órgão.
Por momentos tentou parar de existir. Tentou interromper a respiração. Tentou parar de viver.
Mesmo assim, a atmosfera integrava-se nas suas artérias e o vírus espalhava-se com precisão pelo seu raciocínio.
Sem condescendência, progredia pelo seu corpo que continuava a existir, mesmo que tentasse ignorar esse facto.
A barreira auto-imposta que o fazia tentar separar-se da realidade não era suficientemente forte.
Quebrava-se com facilidade.
Quando se apercebeu desse facto desistiu de tapar o nariz.
Não aguentava.
Vomitou.
Estava a iniciar o processo de metamorfose.
Teve medo.
Correu para a rua.
Lá fora o ar era o mesmo.
Fechou-se no carro e tentou fugir.
Mas, mesmo com a janela aberta, o ar não mudava.
Ele encontra-se perdido por aí, procurando um ar que lhe prenda as pernas.
Talvez até já o tenhas visto.
Nos teus sonhos mais tenebrosos.
À procura, não de ti, mas do teu espaço.
Parvoíces lançadas no céu primaveril.
Laivos de luz que se despedaçam nos teus olhos que sabem a terra renascida.
Cores sentidas, quentes e impressas num papel ainda seco do calor.
Anseios felizes, expectativas que geram raízes.
Crianças que correm pelo caminho pintado a pedras.
Despidos num riacho frio que lhes lava a pele queimada.
A água que lhes alimenta a fome de sonhos que os faz crescer.
E tu que os vês da estrada.
Sorrisos, doidices e criancices que se perdem na corrente inequívoca do tempo.
A música entrou em suspenso, como se ficasse presa mesmo acima do nível da água.
Sem mergulhar.
Aquela interrupção espontânea, mas esperada, fê-lo meditar.
Sentiu-se apertado por um cabo que o impedia de se movimentar.
Oco por dentro e uma sombra do que tinha sido por fora.
Talvez fosse o opaco da sua pele que lhe limitava o pensamento.
Ou o azul marinho metálico da noite.
Ficou inerte, cravado de pensamentos dispersos e desconexos, enquanto os sons teimavam em não serem vomitados pelo auto-rádio.
Ausente.
Estava lá. Sem nunca ter passado naquele caminho.
Aquela "inexistência" de som, puxou uma alavanca dentro do seu organismo.
Um mecanismo involuntário e primitivo.
Sem qualquer justificação ou motivo, as lágrimas iniciaram um percurso descendente.
Sentiu-se saco de plástico roto, molhado pela chuva.
Aqueles que esvoaçam no vento, sem poiso ou ponto de partida.
Revolvia no ar, pairando por vezes e rodopiando mais algumas.
Caótico e volátil como o sopro que o movia.
À espera que algo aconteça.
Que o vento pare de soprar, ou que a chuva o arraste para a terra.
E ele pairou.
Até que a música recomeçou.
E ele não dançou, mas ligou o sinal e mudou de faixa.
O sol é mera luz que me incendeia o caminho.
A estrada é rodeada por chamas.
Não me queimam, nem me cauterizam a pele.
Tenho uma certa sensação de paz enquanto sou consumido.
Não pelo fogo, mas pelo alcatrão da estrada.
O carácter nómada daquele amigo escuro que me vai corroendo as palmas dos pés.
Desgasta a borracha e pinta-me o corpo sob pressão.
Misturo-me com o piche queimado.
Torno-me um líquido opaco, embebido pela chama que me renasce.
Vejo-me, qual terceira pessoa, ressurgir do fogo negro que me envolve.
Mudado e diferente.
Algo mais do que fui.
Mas muito menos do que sonhei.
Olhava pelo espelho retrovisor, para controlar o casal que ia no carro atrás dele.
O marido, ouvia displicente as acusações da esposa, que vociferava, gritava, cuspia inconscientemente saliva dos seus lábios, chorava e mordia frequentemente os lábios como se não quisesse expelir tudo o que o seu íntimo lhe impelia a dizer.
Tudo isto perante o ar impávido e ausente do senhor careca - o seu marido.
No banco traseiro, numa cadeirinha que outrora pertenceu a um bébé, uma criança escutava atentamente, enquanto mastigava um daqueles bonecos maleáveis de borracha, que lhe distorciam os dentes logo na infância.
A cena era impressionante. Num espaço encerrado, separados do mundo em movimento o conflito surgia.
A justificação era irrelevante, apenas as expressões importavam.
As rugas na testa da esposa eram sem dúvida marcadas. Dir-se-ia que envelhecia uns dias com aquela discussão. Olhos lacrimejantes, voz (supunha ele) aguda, que preenchia aquela lata andante. Ela colocara-se numa posição que lhe facilitava a compressão do abdómen, para a voz sair mais potente e agressiva.
O marido permanecia num outro mundo, olhando incoerentemente para o vidro. De olhar vazio. Como se nada fosse com ele.
A criança, comia apetitosamente o boneco, libertando a tensão da cena naquele pequeno instrumento industrial.
E o quarto espectador, permanecia expectante. Como se quisesse que reparassem nele para interromperem aquele teatro humano parvo.
O carro à sua frente andou e ele ainda ficou cinco segundos olhando pelo espelho retrovisor, mas pensou:
"A vida não parou para mim"
E seguiu sem reparar se eles ficaram ali ou prosseguiram o monólogo a três em andamento.
No horizonte erguiam-se duas torres solitárias, separadas pela arquitectura humana que as erigiu.
Olhavam-se por décadas, mirando a cidade em pontos distintos, criando a sua própria percepção da realidade.
Das profundezas da terra, as suas raízes subterrâneas alicerçadas em concreto, guardavam os despojos da humanidade, os veículos largados por dias, que escondiam carcaças de carne.
Zé Ninguém observava-os. Estático.
Nunca tinha visto prédios tão altos.
A sua infância tinha sido passada entre o verde bucólico e transparente da inocência perdida numa aldeia ribatejana.
Uma adolescência precoce, uma barba rala que lhe nascia escura da pele, um filho que lhe nasceu devido a uma festa de Verão, e depois mais uma e mais outro e mais outro.
Quatro ao todo, obtidos de forma similar, mecânica e lisa. Sem dúvidas, perguntas ou desejo.
A família era algo necessário, útil na sua existência.
No entanto, a sua paixão real eram os animais. Eles não tinham segredos para o Zé. Até se dizia que Zé Ninguém tinha uma certa virtude em comunicar com os diferentes seres. Conseguia modelar o pensamento de uma galinha como poucos. Um poder sem dúvida útil para quem vive do que a natureza fornece.
Aquando da matança do porco, Zé tinha uma pequena conversa com ele, onde lhe relembrava da inexorabilidade da vida. O porco saía renitente, mas aceitava o destino que a vida lhe deu.
"Há poderes que não podemos controlar."
Hoje, ele sentia na sua própria carne aquilo que tinha transmitido aos porcos no decorrer da sua vida de meio século.
Uma noite, enquanto fumava um cigarro e ladrava ao cão para ir buscar a ovelha que se afastava, observou de longe as luzes que nunca lhe tinham dito nada.
Dentro da sua mente simples, aquelas luzes electrizaram-no.
Viu quão fútil era a sua vida.
Uma caminhada em torno do alimento, do sexo, dos animais.
Os filhos já tinham as suas próprias manadas.
E ele já sem mulher, apenas tinha os animais.
De poucas falas, Zé Ninguém por vezes, jogava à Sueca com uns seres estranhos, que vociferavam, cuspiam e bebiam como grunhos.
Jogava, bebia um copito de vinho tinto e fugia.
"Aquele Zé Ninguém é um esquisitinho" - diziam eles.
No seu íntimo, no entanto, Zé Ninguém sabia que aqueles seus "amigos" eram rostos espelhados anónimos da sua própria vivência animalesca.
Entre eles e os animais pouca diferença havia.
Naquela noite em que viu as luzes da cidade, pensou pela primeira vez em conhecer pessoas.
Pessoas humanas.
Algo que lhe fizesse redescobrir a humanidade perdida.
Sabendo que os seus pés caminhavam em direcção ao cataclismo largou o rebanho que balia e o cão que o avisava.
Caminhou em direcção à voragem que o engolia.
A noite esfumou-se em 5 cigarros e alguns quilômetros de caminhada.
De manhã Zé Ninguém chegou à cidade convicto de encontrar algumas respostas.
Viu veículos. Carros potentes, como aqueles que os emigrantes traziam no Verão à aldeia.
Assustou-se com o barulho.
Viu a cara das pessoas. Autómatos.
Vazias de expressão, de sorrisos, de contacto humano.
Não. Não eram pessoas.
Se no campo divagavam animais, na cidade sobreviviam seres mecânicos.
Zé Ninguém, não encontrou resposta à sua pergunta.
Sentou-se num banco e levou os olhos ao horizonte.
E foi aí que os viu.
Postado sobre o parapeito do topo de um dos edifícios, Zé Ninguém observava a cidade de dia.
Não olhava para o chão. Não tinha vertigens.
Trocava olhares com o outro edifício.
Tão perto e tão longe. Sempre ligados, sempre próximos, mas sem possibilidade de se tocarem.
Sussurrando eternamente à janela um do outro.
A humanidade é de certa forma assim. Seres que caminham numa proximidade geográfica, mas que nunca se tocam, que nunca quebram a barreira que os separa da SUA realidade.
Zé Ninguém sem medos, lançou-se do parapeito.
De certa forma, no momento em que se libertou da terra sob os seus pés teve a SUA resposta.
Nem eu a conheço.
Talvez no momento final a saiba.
Mas sei que antes de se esborrachar no chão da cidade, Zé Ninguém sorriu.
Sou uma sombra refletida num quadro branco.
Limpa, mas manchada de escuridão.
Diafragma corrompido e distorcido do sol.
O dia seco aflige-me a garganta e a testa, fazendo-me desejar por locais mais arejados e frescos. Tento rasgar por entre a atmosfera densa que transforma o ar que flui dos meus pulmões em peso para as costas.
Por vezes sinto uma aragem afagar-me a parca cabeleira. É melhor que um copo de água. Pouco incisiva, mas decisiva, chega e faz-me inspirar o seu ar limpo e virgem.
A aragem é providencial. Ali à frente o deserto desenhava-se em papéis cor de areia.
Alcatrão, corpos suados, sorrisos misturados em cilindros de vidro, embebidos em panos que envolvem peles escurecidas pela luz que me ataca inconscientemente.
Vejo-me no chão.
Sou sombra.
Sou luz.
Sou escuridão.
Tudo fundido e esbatido no mundo que suporta a minha caminhada.
A lua chega e com ela o pálido, suave e cálido licor da noite.
Abro a janela e bebo dela com o meu corpo todo: o olhar, os ouvidos, o paladar, a pele e o nariz.
Vejo-me no céu.
Sou pó estelar.
Sou ar condensado.
Sou eu.
Todo o mundo habitando num organismo de carne disperso e esquizofrénico.
Sou tudo o que temes e o que desejas.
Sou o medo, a sensação, a vertigem, e o prazer.
Sou noite e sou dia.
Sou sombra de dia e vulto à noite.
O tempo é apenas uma mera formalidade que deforma a nossa carne oca.
Um simples instrumento de prazer.
Infinito e relativo à percepção de quem mira o relógio.
Nada dura para sempre, no entanto, nada verdadeiramente termina.
São tantos os seres que rodeiam esta carcaça que definha pelas suas próprias valetas.
Sangue, pus, medos e sensações.
Tudo misturado numa tigela de barro.
Moldado por mãos etéreas e criadoras.
Humanos frágeis, pensadores, poderosos, agressivos.
Nada pode mudar a sua natureza.
Uma natureza negra, inflexível, paradoxal.
Basta de adjectivações qualificativas.
A vida deveria ser vista superficialmente, como se a olhássemos de Marte.
Apreciando o silêncio comutativo daquelas térmitas minúsculas que labutam para a sua morte.
Dessa forma desperceberíamos a natureza negativa, vingativa e negra que vive na essência de cada célula humana.
Sinto que o cordão que me liga à humanidade começa a romper-se.
Sinto-o corroer por dentro, como um bicho voraz que nos devora ávido de fome as entranhas.
A pouco e pouco inicio um trajecto irreversível. Um caminho tortuoso, mas que voluntariamente sigo.
Vazio de conteúdo, olhando o passado, presente e futuro em paralelo.
É uma sensação fresca.
Lembro-me que as palavras não são assim tão poderosas.
E lembro-me que apenas o tempo ou a minha natureza me vencerá.
A mim, a ti, a todos e a tudo.
O ar mudou.
Em diferentes camadas de tonalidades o violeta, o laranja e o azul, fundiram-se numa simbiose única trespassada por nuvens diletantes ao sabor da aragem.
No meu plano, apenas duas luzes vermelhas existiam nas faixas.
Cintilantes mas efémeras, como dois cigarros que se acendem na noite.
Faíscas de vidro dispersas na atmosfera tardia.
Por vezes relembravam-me que a velocidade é apenas criada para sabermos que somos finitos.
Quanto mais depressa voamos menos tempo estamos em viagem.
Sinapses entrecortadas por memórias do passado.
Que me fazem recordar o pedaço de pão esboroado que sou hoje.
Sou algo do dia de ontem.
Algo que não pertence a este universo presente.
O mundo, esse nasce, gira, come, ama e morre.
Sem esperar por nada em concreto.
Uma infindável sequência de acções, de vãs consecussões.
Gritos de pneus travados, vidros de borrachas queimadas, o caos e o sangue que me impedem de ver a soturna paisagem.
Montes verdes que engolem o ar que muda.
Mas eu permaneço perene.
Seco como as raízes que me prendem à Terra.
Forte como a gravidade que me assola o pensamento.
Negro como a noite que suplanta o violeta, o laranja e o azul.
Adequo-me à rotina.
À viagem.
Mas vou sonhando.
Mas vou gritando.
Mas vou girando.
Mas vou comendo.
Mas vou amando.
Mas vou morrendo.
E sigo cantando: "o silêncio da minha sombra permanece em mim."
Já vai longo este livro que me vejo escrever contigo na minha mente.
Acompanhas-me na consciência que me marca o papel com uma tinta que não se esborrata.
A cada movimento do pulso que ao girar produz letras, elas sabem-me todas ao mesmo. Parece que já as vi e repeti em algum lado. Não sei bem onde. Mas sei que tudo aquilo já teve um início.
Repetição até à exaustão.
Mas não me canso de te sentir a cada palavra articulada pelo estandarte portentoso da caneta.
Denoto em ti uma certa relutância em continuar. Páras e observas melancolicamente o que já produziste.
Já falaste muito.
Já escreveste ainda mais.
Haverá algo mais para dizer?
Páras e pousas a tua espada na mesa.
A estrada vai longa e tu olhas para trás.
Sorris.
Recordas momentos que de outra forma se teriam perdido na imensidão do nada.
Sorris novamente.
Um movimento de lábios mais amplo e completo.
Enorme dir-se-ia algum ser menos avisado.
Agarras na tua arma e voltas à batalha.
Irás ver a realidade, da tua forma, à tua maneira.
Mas o desenho sairá sempre de forma diferente.
Já o viste em algum lado, mas as cores são diferentes.
Estão embebidas nos teus cabelos negros, face pálida e olhos esverdeados.
E sabes agora, depois de pensares que o que conta na vida são as colorações e não o movimento do pulso.
Ganhaste uma forma de papel negro.
Esborratado em escuridões absurdas.
Escrevi-te, mas estavas envolta num nevoeiro que dissipava a tinta.
Letras suaves que se perdiam na pintura.
Engoliste os meus dedos, mãos e corpo.
De uma só vez.
Voraz, como quem não se alimentava à muito tempo.
Senti-me rasgado e dentro da página obscura.
Estraçalhado da sua carne.
Espalhado por sítios desconhecidos.
Repartido.
Dividido.
Entre Ela e Eu.
Olhei-te pela primeira vez.
A luz que preenchia o sagrado local fechado, parecia sentir-se atraída pelo teu poder gravítico.
Quando ela incidia sobre o teu olhar, desfazia-se em mil partículas de eternidade, que irradiavas pelas pessoas que se cruzavam pela tua essência.
Apresentaram-nos e vi-te pela segunda vez.
Tive de baixar o olhar, pois brilhavas com uma intensidade ainda maior que da primeira vez.
Equilibravas esse poder estelar, com as páginas do teu sorriso, que libertavam com movimentos fluidos e suaves o som da chuva.
E como eu adoro ouvir o som da chuva, encoberto pelo cobertor da tua pele.
Observei-te uma terceira vez.
Tantos mundos que giravam em torno de ti.
Senti as tuas lágrimas sinceras de felicidade.
Percorri as tuas dúvidas e anseios.
Por momentos olhava directamente para o teu centro.
Perdia a visão e sonhava com o intangível.
Provava a fina camada da perfeição que emanavas do teus subtis lábios.
Queria manter-me cego, mas com aquele sabor suave e sonhado desfazendo-se na minha etérea imaginação.
Agora relembro aquela faísca de tempo que fazia corroer a minhas fundações e desabar a teus pés.
E tenho medo que desabe, mas não volte a reconstruir-me.
Somos ratos no porão.
Encerrados, fechados, enclausurados em trens de metal e vidro que nos conduzem pelas profundezas escuras do centro de Lisboa.
Todos estamos absortos, tentando ignorar o destino que nos espera fora das portas daquele comboio subterrâneo.
Imóveis, tentamos conter o olhar vazio e observamos o nosso frágil interior através dos vidros que nos reflectem na escuridão. Mera diferença de luz.
Por vezes cruzamos ou intersectamos o olhar com algum outro rato que tenta desesperadamente encontrar faces humanas naquelas visões sobrenaturais vespertinas.
Outros tentam intensificar a sua cultura: lêem, escrevem, pintam, sonham ser humanos.
Todos nós conseguimos abstrairmo-nos daquele meio de locomoção e colocamo-nos lá fora, sobrevoando problemas e deslindando casos complexos.
Nos nossos sonhos somos seres, com corpo uniforme, perfeitos, capazes da etérea realização.
Mas a voz mecânico-digital avisa-nos que o nosso destino aproxima-se.
Ganhamos posição e, mal as portas se abrem, saímos, como se os passos fossem comandados.
Fantoches das linhas que nos prendem à realidade.
Subimos as escadas, apressadamente, tentando escapar das entranhas revestidas a betão da terra.
Pobres ratos.
Encontramo-nos numa linha ténue de produção que nos conduz à calamidade final.
A cada dia, a cada lanço de escada, damos mais uma pázada na cova que nos irá tragar pela eternidade.
Desconhecemos que aqueles caminhos pelos confins da terra, existem apenas para nos dar a conhecer a nossa futura morada.
Muitos deles olham, conhecem os cantos da casa, as agruras das gotas, os insectos que a povoam e que os irão devorar. O barulho dos carris que se estranha e entranha.
Olham, mas não compreendem.
Ou então, fingem não compreender.
Quando nós, ratos do sistema, inspiramos o vento rarefeito do nível terreno, todo aquele negrume do qual saímos, parece esbater-se lentamente como um sonho que lentamente esvanece na memória.
Mais umas passadas e a metamorfose torna-se completa.
De ratos que se ignoram viramos borboletas que se esquivam.
A indefinição ganha corpo de criança completa surgindo do nevoeiro.
Não é perfeita, mas tem margem de crescimento.
Conduzia pela A1, em direcção ao meu destino. Num carro novo, pintado a azul metálico. Conduzo-o com cuidado, tentando evitar as pequenas incorrecções de engenharia que se prolongam pela extensa estrada que me liga às raízes escuras do tempo que tento esquecer. A suspensão comporta-se com grandeza. Aguenta o tratamento difuso que lhe aplico.
A chuva colapsa dos céus.
Tinge-me o vidro do carro de uma mistela aquosa que transforma o veículo conduzido em navio navegado. Ele rasga pela água que cobre o alcatrão como um cobertor de flanela te acalenta a pele nua numa noite gelada de Inverno.
Sorrio enquanto deixo o passado esvoaçar pelo vidro traseiro.
É como um pequeno papel que levanta voo, mas não suportando o peso do vento conjugado com o da água que desaba dos céus, morre no piche queimado e seco, num outro dia de Verão perdido nas eras.
E eu sorrio.
Ligo a música.
Começo a sentir aqueles acordes acertarem-me com precisão divinal o estômago. Algo quente percorre-me as entranhas.
No entanto, um nó comprime-me a garganta.
Um nó de medo. De incerteza.
Sinto que as minhas cordas vocais enrolaram-se irremediavelmente algures entre a língua e o esófago.
Mas a música, que as colunas libertam, começa a afagar a garganta.
Faz-me provar a manteiga quente e escorregadia das palavras perenes e serenas.
Liberta-me do nó das adversidades e das dúvidas.
Sinto-me como se estivesse a sair do nevoeiro.
Imberbe. Novo. Liso. Incolor.
Tentemos explicar sem ser confusos.
A minha vida vai novamente inverter-se.
Girar sobre o seu próprio eixo.
Ou será que o ano passado é que andava em sentido contrário?
(Re)vivia o passado.
(Re)lembrava memórias mortas.
(Re)novava mágoas enterradas na terra que me viu crescer.
Acabaram os lugares, as faces e as rotinas comuns.
Novamente.
Abre-se uma página em branco.
Adoro isso.
Prefiro escrever a ler algo já escrito por outras mãos que não as minhas.
Não lhes compreendo as letras.
Não gosto das suas reticências.
Não aprecio as suas comparações.
Decidi, por conjugação das navalhas que me definem a passada tornar-me um diletante do mundo.
Perdido na minha terra.
Aquela que me acolheu e me envolveu nos seus braços de luxúria.
A mesma que rejeitei.
Sofri com essa decisão, por um ano.
Não foi um ano mau, mas foi um passo atrás no plano.
A regressão terminou.
E agora assola-me uma felicidade simples, pela indefinição do que se avizinha.
Espero que desta vez seja definitivo.
Quero viver no nevoeiro.
Longe do mundo que me comprime.
Trabalhar, envolver-me, criar raízes.
Tudo depende das minhas mãos numéricas e da minha mente alfabética.
O coração não é chamado nesta necessidade de ser maior do que eu.
Sei que me espera turbulência.
Mas vou eu a navegar o avião.
Vou eu a guiar o meu destino.
À frente da carroça.
A sorrir.
Gosto de vaguear sem destino pelo nevoeiro.
Sentir o seu estado gasoso perdido algures pelo Paraíso distante.
Procurar o nada que se encontra bem no centro dele.
Por vezes estendo os braços e tento encontrar a tua forma.
Meros jogos de crianças.
Ainda não te vi, mas vejo-te em todo o lado.
Ainda não te provei, mas sei que tudo me sabe a ti.
Ainda não te senti, mas a minha pele arrepia-se ao sonhar contigo.
Tenho fome de mudança.
De sentir o meu estômago num nó com o medo pueril de quem não sabe para onde vai.
A vida devia ser um conjunto de questões contínuas.
Algo sem uma resposta concreta.
Algo cinzento, encravado entre a dicotomia do existente.
Um purgatório entre o preto e o branco.
Lamento.
Estou a repetir-me.
Mas a redundância por vezes serve o seu objectivo.
E o meu é enfatizar-te.
Tornar-te volumosa.
Real.
Criar-te a partir de todas as experiências que tive, olhar-te nos olhos e ver-te sorrir.
Algures perdida de mim no nevoeiro.
Mas gritando por mim.
Esperando pela minha mão que te encontre.
Sim. A minha mão em forma esguia de língua.
A minha mão que te escreve e corrompe.
Que caminha na paisagem da tua pele.
A minha mão que sonha.
Sei que existe um vazio entre nós.
Algures onde tu começas e eu acabo.
Sei que te disfarças de nuvens, apenas à espera do acidente.
Conheço a luz difusa que emites.
Apercebo-me da tua metamorfose.
E aí sinto o teu corpo.
Apercebo-me finalmente que tu és o nevoeiro que me afaga a consciência e me diz que tudo vai correr bem.
Habitas no meu mundo.
Ainda indefinida.
Mas em breve o nevoeiro vai dispersar.
E o sol vai raiar.
Duro, grosso e seco como no Verão.
O céu apresentava-se em tons de azul caótico, entrecortados por uns lampejos esbranquiçados que colocavam o universo em suspenso.
O negro do alcatrão absorvia a minha passagem à medida que aquelas pétalas liquídas iam solenemente escorrendo e sendo absorvidas pelo negrume natural de fim da tarde.
Chovia cada vez com mais intensidade.
A água rasgava a abóboda celeste e insistentemente tombava na chapa metálica do meu Opel Corsa, tornando a viagem cada vez mais difícil, pois a intensidade aquosa era inversamente proporcional à visibilidade no vidro dianteiro.
Tinha o ar "forçado" no máximo, mas mesmo assim o vapor que exalava dos nossos corpos era suficiente para tornar a atmosfera densa dentro do veículo, gerando uma cortina que nos separava do mundo.
Frequentemente agarrava no pano escuro que habitava no espaço entre os dois assentos da frente, limpando aquela mistura de carne e oxigénio que insistia em tornar-se acinzentada bloqueando-me o sentido da visão.
À medida que progredia, pensava naquelas pequenas localidades rurais pelas quais ia passando tangencialmente.
Nas pequenas estrelas terrestres amareladas que se dispersavam pelo vácuo da auto-estrada.
Na melancolia característica, erguida a granito, onde abundavam as pessoas com a mentalidade solidamente alicerçada na terra áspera e as vozes que roçavam o vulgar.
Nos seus caminhos quadrangulares, revestidos de paralelos que açoitavam a suspensão do meu carro.
A mente divagava à medida que a música do rádio ia tonificando-se.
Parece que as ondas são mais fortes próximas da cidade.
Por vezes deslizava no alcatrão manchado a gelo.
Era tudo uma questão de controlo da velocidade e de gestão da caixa de mudanças.
Controlo e gestão.
Sorrio ao pensar nessas palavras que tanto significado comportam.
E quando a voz do GPS me diz:
"A 2000 metros por favor saia"
Penso:
"A vida deveria ser vivida em permanente viagem".
E nesse raciocínio a paisagem repousou.
O vento amansou.
A chuva parou.
Do céu azul escuro surgiu mais um lampejo que me indicou que esse sim, era o caminho.
Desliguei o telemóvel e movi-me novamente pela rotina.
Escrevi-te no papel morno e industrial, produzido algures por máquinas sapientes e eficientes.
Pintei o cinzento esbranquiçado daquele jornal, manchando a sua ambiguidade com as letras tingidas a azul que desejava sussurrar-te ao ouvido.
Li-as.
O azul tocava tangencialmente por vezes as letras impressas a negro.
Perdia-se o significado da leitura como um todo.
A colossais letras lia-se:
"IT'S TIME".
Por cima do título escrevi:
"THIS IS 4 U"
Como se o teu olhar fosse capaz de descortinar as subtis mudanças de tons que o texto continha.
Mas estavas longe.
A tua visão não me alcançava.
(Julgava eu.)
Contemplei-te novamente.
O brilho do sol tornava-te o olhar eternal.
Miravas o infinito com Lisboa no horizonte.
Vergada pela memória do que te faltava completar na cidade das colinas.
O mar revolto de Espinho estava ao teu lado direito tornando o comboio um espaço encravado no tempo.
Uma linha que nos movia entre o céu, o mar e a terra.
Por vezes o sol abria os seus braços e tocava na tua pele, gerando um brilho particular que me arrepiava a mão que tentava retratar o teu ser, fazendo-a fugir e cair na imperfeição do teu rosto perfeito.
Senti que era o momento de gritar ao mundo que a distância não nos separaria.
Mas os formalismos da sociedade impuseram-se.
Abri o jornal numa página de crónicas em que as letras ao longe se uniam e formavam uma mancha de nada.
Escrevi com caligrafia cuidada o que te queria dizer.
Tapei-me com o jornal.
Tive medo da tua reacção.
Medo juvenil.
O meu coração batia rápido como se as pulsações tivessem caído num castelo de cartas.
Vi-te sorrir e acalmei-me.
Um sorriso que me fez unir os pontos do desenho.
Fechei os olhos e sonhei.
Não com o ontem, nem com o amanhã.
Um sonho irreal, como as nossas sombras num quarto fechado.
Mas existente como as tuas cascatas capilares.
Senti os teus lábios nas minhas costas.
As tuas mãos na minha face.
Ambas entrelaçadas num nó que não se desfazia.
O sonho ocorreu encerrado na minha mente.
Fechou-se no hoje.
Abri os olhos no amanhã.
Ainda a teu lado.
Sorrindo num mar inseguro de lençois pacíficos.
Só te peço que não me peças certezas.
Aproveitemos a incerteza enquanto durar.
(00:39)
Fluxo indistinto, amorfo, inamovível e omnipresente.
Corrente que me desfaz a pele e o cabelo.
Integras a minha carne a cada dia e a cada noite.
Gostava de ter o poder de te controlar.
De te modelar, transformar, mudar.
És a única força eterna que está presente desde a formação do vácuo em energia.
Comandas tudo o que se move.
E o inerte também.
Os teus efeitos são visíveis no meu impotente ser.
Tudo se torna passado com a tua passagem.
És corrosivo.
Não tens personalidade.
Nem velho nem novo te pára.
As nações não te impedem. Não o conseguem.
É-te indiferente os seus esforços para ignorarem que todos eles mais tarde ou mais cedo serão apenas memórias guardadas na mente de desconhecidos.
És egoísta, pois apenas consideras o teu propósito.
Avanças sem nunca retroceder.
Numa marcha inexorável.
Odeio isso em ti.
Não me interpretes mal por favor.
Não digo isto como forma de te magoar até porque não o consigo fazer.
Sei que rumas à eternidade.
Com passo certo e constante.
Sem correcções.
Somos nós que as criamos artificialmente.
O meu desejo ao escrever-te é pedir-te que me deixes acompanhar-te.
Perder-me na imensidão do teu horizonte mais largo que a vista.
Deixa-me andar lado a lado contigo, sem sentir a tua passagem.
Intriga-me a tua origem.
Deixa-me conhecer-te.
Colocar a mão nas tuas entranhas e entender o mecanismo que te faz funcionar mesmo quando tudo o resto está parado.
Sei que não respondes.
As melhores perguntas permanecem fechadas no livro de capa preta.
Encerradas até chegar aquele que parou a terra.
Mas que mesmo assim não te parou.
Nada no mundo muda.
Todas estas circunferências e casualidades que nos intersectam são obras da tua mão.
Não te sei definir.
Faltam-me as palavras quando penso em ti.
Toda a equação da vida tem como resposta o factor mais constante e que no entanto será sempre exógeno.
Exterior a mim e ao meu amor.
Quem és tU?
QUem és TU?
QUEm éS TU?
QUEM ÉS TU?
Só ouço o silêncio.
Mas sei que estás aqui.
Comigo.
E com todo o mundo.
Sei que não estou errado.
Nem em forma, nem em substância.
Mas também sei, que apesar de nunca vir a conhecer a resposta à pergunta da tua identidade, tu vais acompanhar-me até ao dia em que um qualquer cataclismo astral me retire a noção de pensar.
Quando nadar com os anjos negros no rio que me absorverá este suco seco que me corre pelo corpo, saberei que o culpado foste tu.
Assassino.
(1:00)
Passaram os dias e eu ressuscitei.
Os abutres deixaram de navegar em volta dos lençóis.
Acordei do sono eterno.
Senti a carne seca.
Sabia a areia.
Desfeita pelo tempo de morte.
Levantei-me da cova e observei-me no reflexo de luz que tinha plantado.
Estava novo.
Perfeito.
As manchas tinham perdido a consistência e abandonado a minha habitação frágil.
A carne enchia o meu esqueleto, como da primeira vez.
O meu semblante estava definido, aberto, pueril.
Senti-me optimista.
Como todos se sentem ao inspirarem o cheiro da novidade.
O mundo estava reconstruído.
Erguido sobre as plantações verdes e inertes.
Cheirava a eterno.
O sol brilhava com mais intensidade, como se tivesse acabado de nascer e tivesse descoberto o seu poder.
Nenhuma nuvem no céu assombrava o passeio de um ser renascido.
O orvalho apenas criava pequenas pétalas de luminosidade que divagavam pela terra pintada de esperança.
E eu caminhava.
Recordando os sentidos.
Renascido.
De novo.
Hoje foi o dia em que morri.
Na planície dos guerreiros que lutavam pela saudade.
Cansado da existência vã.
Esgotado pela multidão fugaz.
Fiz um esforço. Preparei o caixão.
Era de pinho.
Cheirava às últimas flores que apanhei no monte sagrado.
Tentei difarçar o estado moribundo da madeira.
"Disfarces que todos vestimos." - pensei eu ao pintar a árvore cortada de luz.
Ainda mastigava as frases do médico:
"Não posso fazer mais por ti"
Integrei as palavras letra por letra, como se fizessem parte da minha carne. Embebi-as numa mistela de água e álcool e passei pela testa.
Senti-me satisfeito quando vi o caixão brilhar.
Reflexo de uma vida opaca e gasta.
Dei o passo e entrei na cova.
Deitado nos lençois.
Fechei os olhos e senti o peso da foice negra cobrir-me.
Sabia que estava preso num corpo e não conseguia sair.
Já tinha hora marcada.
Desenhei mentalmente a minha vida em 6 passos:
Sorrisos, palavras, seres.
Falsos, vazias, secos.
As luzes apagaram-se.
As correntes secaram.
As estrelas quebraram o horizonte.
O nevoeiro tornou a paisagem ambígua.
Não quis complacência.
Rasguei o final feliz.
Sabia que não iria sentir mais.
Senti as feridas cauterizarem.
Senti-me insensível perante o medo.
Mas no momento final (o do último sopro) gelei. Aterrorizou-me a perspectiva da solidão eterna. Da suave inexistência no pó que foge do vento.
Tentei sair.
Tentei evitar.
Mas os eufemismos acabaram.
E eu, sem dó nem piedade, simples e rapidamente, morri.
Vi os teus suaves caracóis repousarem na pista de dança.
Calmamente integrarem a pele das tuas extasiantes mãos.
Sentada tentavas controlar o factor inesperado e caótico da sua forma.
Tentando evitar trocar olhares. Receosa. Cuidadosa.
O perigo espreitava no álcool que escorria das nossas testas.
E dos copos partidos espalhados no chão.
Levantaste-te.
Movias-te a medo. Como se esperasses que a terra fosse abrir para te tragar. Que o mundo se alimentasse da tua energia.
Mas a cada curva que a tua cintura libertava, o céu gerava faíscas.
Pura electricidade.
Torna-se difícil recordar-me do que se passou. A culpa é do vinho da casa.
Já não me lembro se fui eu ou o mundo que trovejou.
Subi ao Nepal. Passei pelo Brasil.
Mas no meio da noite do fim inicial o caminho para casa era o mesmo para dentro de nós.
Algures dentro do teu sorriso.
Olhei-te. O indescritível tende a formar-se nos teus lábios. Como o nevoeiro se concentra à frente dos faróis. Como a tua voz se embaciava no telefone.
Esqueci-me no vento e na chuva que me arrefecia a pele.
Perdido numa esquina à espera de um táxi.
Encostado numa parede.
Tentando controlar os espasmos intestinais e comprimindo a vontade de expurgar os demónios.
Comprimido mas feliz.
Começámos no fim.
E lá para Junho dizem-me que os astros vão orbitar em torno de mim.
Serão eles ou tu?
Espero.
Mas não desespero.
O mundo já gira de novo.
Mas ainda sonho com os teus caracóis.
Esvoaçando a preto e branco como num filme noir.
Perdendo o medo e dançando com o teu vestido cinzento.
Absorvendo a luz.
Ambiguidades.
Malditas ambiguidades.
Vamos a mais um ciclo.
As peças começam a encaixar-se.
Como as tuas mãos nos teus cabelos.
Tu, tu, tu.
A minha música preferida continua a tocar.
Dentro de um elevador.
Que me leva acima dos circuitos fechados.
E esta resolução vai longa.
Tenho de ser pragmático.
Contacta-me através das últimas flores.
Lembra-te disso amanhã no lugar do horizonte quebrado.
Jurei chorar.
Prometi-lhe que o universo iria colapsar se não a tivesse nos meus braços.
Os seus longos cabelos, esvoaçando em direcção à atmosfera.
A pele sedosa, lembrando um chocolate suíço.
O corpo profano e pagão que fazia pecar.
A essência que perfumava o meu corpo, deixando um aroma de saudade.
Mas menti.
Desde que ela partiu, o mundo continuou a girar.
O meu corpo não a lembra.
A minha vontade não a deseja.
Sinto-me vazio, é certo, mas repleto de anseio pela novidade da sensação. O abrir novos livros e desfolhar novas páginas que nunca antes tinha tocado.
Destronar reis e poderes antigos abrindo portas e janelas aos líderes de amanhã.
Matar tradições e fazer nascer contradições novas.
Não sinto remorso nem pena.
As lágrimas são apenas manifestações exteriores que se desfazem no tempo.
Já não sinto dor, nem sangro.
Hoje sei que irei sobreviver.
Mas também sei que ela morreu.
Não apenas para o mundo.
Mas especialmente para mim.
Falo palavras duras.
Mas a dureza é apenas uma forma de fortalecer o corpo flácido.
Paz.
É o que tu e eu sentimos agora.
Lá fora, a manhã nasce. Sem ti.
É uma nova Terra que vale a pena conhecer.
Gosto de deixar uma interrogação livre no ar.
Observá-la flutuar, como que andasse à procura de abrigo numa qualquer mente terrena.
Uma questão indecisa e incompreendida.
Um longo e complexo: porquê?
Adoro ver as curvas desse ponto gramatical ao vento, libertando dúvidas e anseios por todos.
Deixando-os mais humanos, mais conscientes da sua incapacidade de resolução absoluta.
O grande problema é que a interrogação exige sempre o pensamento.
A procura objectiva de solução.
A necessidade de resultados.
Talvez por isso a sociedade prefira as exclamações e as reticências.
São preferidas as ordens inquestionáveis e as indefinições inverazes.
As interjeições simples e os três pontos retóricos e inconclusivos.
Será isto verdade?
Muitos dirão: nem pensar!
Outros: talvez...
Eu direi: porque não?
Decidi não libertar um som.
Enquanto pensava em ti, evitava pisar nas pessoas.
Andava com pressa, porque te sentia.
Mas não estavas lá.
Ignorava as conversas, os olhares, as sirenes, os faróis e os estilhaços.
Desviava-me das pedras ocas.
Por entre montras e manequins usados.
Perdido entre o consumo e os acidentes por acontecer.
Quando trocava o olhar via a morte.
E via-te a ti.
Branca.
Pronta para mim.
Aguardando pacientemente a minha chegada.
Fechava os olhos. Mas na solidão silenciosa da escuridão o fardo da tua inexistência era exageradamente pesado.
Não valia a pena.
As paredes pareciam comprimir-me.
Os risos fúteis e os semblantes felizes irritavam-me.
Apetecia-me implodir.
Esventrar a saudade e corrigir o medo.
A paz não chega.
Não chegará.
Nada, nem ninguém me libertará deste grito lancinante que me corroi os limites internos do cérebro.
Nem lágrimas, nem álcool.
Nem ilusões, nem miragens.
Nada é real.
Para mim apenas existe o vazio do quarto vazio.
Não falemos de mim hoje.
Observa a cidade perene sobre os nossos olhos.
O som metálico do anoitecer.
A forma como o escuro engole o fresco sabor do dia.
Contempla a sua geometria assimétrica.
Sente o caos a partir do qual ela se alimenta.
Vê os edifícios que servem de carapaças a seres imprecisos, vagos, vãos.
As calhas por onde navega a imundície que é lavada pela chuva.
Entendes o que te digo?
A forma despreocupada com que ela caminha para a sua aniquilação.
As linhas ortogonais preparadas para a eliminação.
Um simples gesto de borracha.
Alicerces esboroados.
Falta o vento que os desfaça.
E que a cidade caia.
E eu com ela.
Mas não falemos de mim.
(Parece que tudo que escrevo retorna à fonte com sinais de fumo)
O espectro do medo surge sempre na penumbra.
Sempre que fechas os olhos ele aparece verosímil para te fustigar com o seu poder.
Não lhe resistes.
Ele despe-te da coragem e deixa-te nu, perante o vendaval de adversidades que desenha numa folha de papel.
Ouves a sua voz jocosa, mas não percebes o que diz.
Talvez seja a chave do que te faz.
Apuras o ouvido, mas os sons que profere, saem distorcidos, como uma estação de rádio mal sintonizada. É uma língua distinta a que utiliza.
A linguagem do temor.
Tentas sentir a sua presença, mas o espectro é apenas uma sombra, sem cara.
Sabes que é mais forte que tu.
Sentes isso quando ele te empurra contra uma parede de punhais.
Na escuridão o equilíbrio torna-se escasso.
É irrelevante a tua posição, ele movimenta-se como se aquele fosse o seu mundo.
E é. Tu és um intruso no mundo do terror, que ele comanda com o seu punho encoberto pela escuridão.
Por mais que tentes, os olhos permanecem fechados. Uma força oculta exerce pressão sobre as tuas pálpebras e permaneces na irrelevância do nada.
Onde todos os sons são intensificados pelo sentimento de incapacidade.
Estás cego, num mundo que não é o teu.
Regurgitava a saliva tentando dispersar o sabor a folhas secas que se tinha alargado pela minha garganta.
Inspirava com redobrado vigor o ar gélido que me tornava a pele como pedra dura, insensível.
Caminhava dentro de multidões.
Tecidos e seres limitavam-me os movimentos, enquanto me esforçava por respirar aquele ar que me rasgava o corpo em pequenas, translúcidas e lineares partículas de gelo.
Não me sinto eu. Acho que sempre me senti um organismo estranho, vagueando nas ruas amargas erguidas com sabores desconhecidos.
Sinto-me rastejar por entre as cascatas de pó solar, vagas e insípidas que apenas alimentam o frio.
Sinto que a própria luz congela-me os movimentos.
Vejo os traços desenhados na estrada.
Pequenas figuras geométricas que te permitem avaliar as circunstâncias.
Sinto a estrada rígida, com uma fina camada que dispersa a água gelada pela sua superfície.
Sinto a minha mão fechar-se.
Um sentimento involuntário.
Uma dor sonhadora.
Uma ligeira alteração de humor.
Fecho os olhos e deixo-me guiar pelo pesadelo.
Uma escuridão que me assola e inebria.
Um negro que me absorve e me envolve no seu manto.
Quebro a contenção.
Rompo com a prisão da irrelevância.
Sinto-me embater nos limites da mortalidade.
Desfaço-me por entre gritos de medo e metais afiados que me aquecem a carne em sangue.
Lanço-me na inexorabilidade.
O corpo jorrou a sua vida.
Lembro-me que senti o alcatrão frio.
Nesse momento, ao cortar as amarras que me prendiam, soube que aquele planeta não era o meu.
Lá longe, numa galáxia distante, esperavam que me libertasse dos grilhões da humanidade e me tornasse o que sempre fui.
Apenas uma ideia.
Ou várias que coexistem.
"Sometimes fate is like a small sandstorm that keeps changing direction."
"We're all just shadows and dust."
Fighting against the wind.
Driving to nowhere.
S
And yet, nothing disturbs me. And yet, this walk in the night full of echoes doesn't hurt me. And yet, I still crash but feel nothing within me.
Stupidity, vacuum, void.
It's all I see when I look into your flashing eyes.
And I still smile thinking about it.
Complexity?
No...
Just silliness.
Olhava para alguém que não eu e lembrava-me de ti, desconhecida.
É triste esta sucessão de triângulos que me fazem desenhar.
Eu num vértice intercalado por espaços que me separam dos outros dois pontos.
Sem nunca os conhecer.
Sempre desfasado da realidade. Solitário.
Algures perdido num papel químico, desenhado por mãos inexperientes e irreverentes.
Mesmo que o meu cérebro esteja constantemente a descodificar sons e a identificar lugares comuns.
Algures dentro de mim ouço-a falar e três pontos tocam tangencialmente no círculo que nos envolve.
Desenho com a tinta das suas palavras um rosto desconhecido, amorfo e descaracterizado.
Mas mesmo assim não é suficiente.
Preciso da tua pele.
Ela não te sabe definir.
Falta algo.
Talvez seja o meu espelho.
(Nem Narciso escreveria melhor.)
Vejo na minha mente uma enorme sequência de números primos que me distancia delas.
Também eu, sou divisível apenas por mim mesmo e por um.
Ao somar os números primos, compreendo que apesar da realidade instável e estranha, és tu, quem eu não conheço o elemento que preciso somar para completar a fórmula.
Divide and Conquer.
Do seu olhar caem pétalas de luz, perfumadas, libertando o aroma característico das rosas.
Inspiro a atmosfera e temo ficar temporariamente cego.
Sou banhado pela luminosidade, ela preenche-me, abarca todos os espaços do meu corpo.
A certo momento, o meu reflexo é mera imagem fragmentada, algo que não se consegue distinguir do imenso manto que ela proporcionou com a sua visão.
Voluntariamente eclipso-me.
Desfaço-me.
Rasgo a noite e fecho o olhar. Sou apenas algo intangível.
Irrelevante.
Sinto que navego num universo vazio que apenas contem o meu EU provisório.
Tamanho poder preocupa-me.
Já não sinto tonalidades. É tudo idêntico, tudo submerso nesta mistura de pureza e doçura que elimina os sentidos.
Estou no mais fundo dos nadas. O local onde a vida se esquece de respirar. No fundo do poço da sede humana.
Algo bate fundo no meu baixo ventre. Uma força gravítica que me assusta.
Lembro-me que me posso perder.
Aquela luz que provém dela incita-me a ser homógeneo.
A fundir-me com a utopia.
Ser inexistente.
Isso aterroriza-me cada vez mais.
Com esforço, tento lembrar-me que necessito de manter contacto com a Terra.
Não posso flutuar.
Tenho de refutar este desejo de me tornar uno com o nada que me envolve.
É como se me tivesse quebrado em dois.
O EU que insiste em desistir e regressar à sopa primitiva apenas para lhe pertencer pela eternidade.
O EU que sabe que tudo aquilo não passa de uma mera ilusão.
É no momento em que tomo consciência que sou vários que a minha personalidade é dividida com fio de prumo e um dos meus olhos abre-se enquanto o outro permanece na escuridão amorfa e plena da luz.
E nesta ambiguidade permaneço recortado.
Do precipício vejo a queda.
É simples.
É reconfortante saber que o chão me acolherá.
É prazerosa a ideia de simplesmente partir.
Cair das estrelas.
Desfazer-me em pó imutável de cometas.
Mas a maldita naja persegue-me.
E eu, pobre mortal que não detem poder transcendental sobre ela.
As suas presas venenosas anseiam por provar a minha carne tenra.
E eu resisto.
O seu veneno líquido corroi e desfaz o desejo em mil partículas de raios de luz.
Maldita luz.
Prefiro a sombra da lua que me protege, que me esconde, que me torna apenas uma vírgula nesta sucessão milenar de palavras humanas.
Uma vírgula que altera o significado à frase justificativa da existência.
Ela apronta-se.
Deixa-a colocar a camisa.
Precisa de se revestir de harmonia.
Vai sair à rua para te acompanhar.
Vestida para matar.
Assassina de sonhos.
A batida continua a rodear-me.
O coração a galopar.
Cavalo e bomba veloz.
As pernas não param de dançar.
E as dores inexplicáveis surgem.
É o sangue a jorrar?
Será a ferida que não fecha?
Dor psicológica.
Corrosiva.
Incisiva.
Sagrada.
E tudo isto surge inscrito com a promessa de um fim.
Assino o contrato?
Era uma manhã em que choviam sonhos.
Ele abriu os olhos mas não acordou.
Estava preso num estado latente entre o céu e o abismo.
Fechado num local chamado existência.
Levantou-se.
Sentia as forças físicas exercerem poder sobre a sua carne.
O corpo pedia o inverso do que o cérebro lhe ordenava.
Ordens monossilábicas que se transmitiam aos nervos e músculos, levando-o a movimentar-se.
Contemplou-se ao espelho e não se conheceu.
Quem era aquela imagem estranha, refletida no vidro?
Um ser hediondo, desfigurado, estragado pela mera existência.
Ignorou-se.
Vestiu-se com o aprumo que lhe exigiam.
Hoje era apenas mais um traço na sua semi-recta finita.
A cada movimento esvanecia.
A cada quilômetro perdia-se na corrente inexorável do tempo.
A cada relance ao mar vítreo desligava-se da vontade que o comandava.
A sua mente encontrava-se algures entre os tecidos sintéticos e as plataformas informáticas.
Lá fora o ciclo perpetua-se.
Mais água.
Mais vento.
Mais nevoeiro.
Menos descanso.
Ainda não é a altura de quebrares as regras.
"Só mais um pouco e a gravata não mais existirá."
E com essa promessa bíblica em mente sorriu para si mesmo, inspirou, apertou o nó que o sufocava e lançou-se uma vez mais à tarefa árdua de existir.
É uma noite cristalina, pintada em tons metálicos.
Percorres a periferia em busca de algo que te mate a fome.
O relógio insiste nos seus murros secos contra o muro do tempo.
A tua pele sente-se rasgar, endurecer, criar camadas, enquanto a folha afiada do vento passa por ela.
Algures no meio da lâmina sentes-te dispersar.
Sentes que as tuas partículas são lançadas sem complacência caindo e banhando-se no rio frio.
Ouves ao longe o teu corpo gritar.
O grito é seco, como a tua garganta, arranhando as paredes do vácuo.
Sem raciocinar ergues o pescoço e ignoras o buraco do estômago.
Observas a manta azul escura que cobre o corpo do vazio universal.
Notas pequenas imperfeições cintilantes.
Pequenos pontos de calor que se esforçam por serem reconhecidos.
Lá longe.
Talvez já nem existam.
Sentes-te no fundo do poço e vês a luz do dia lá em cima.
Aquela luz visceral que te acalenta a face numa mistura branca, faz-te lembrar o olhar dela.
O sorriso pueril.
Algo que neste momento talvez já nem exista.
Algo fora do teu alcance.
Algo que te mataria a fome, mas que já não podes provar.
Libertas uma lágrima que rapidamente congela.
A gravidade fá-la flutuar, antes de se colapsar no eterno piso que nos sustenta.
Fungando, prossegues o teu caminho.
Lá longe, ao ver a tua imagem desfasada por anos-luz, também a estrela chora por ti.
Abateu-se sobre nós a ambiguidade.
Corpos estelares inertes que se invertem sobre o seu próprio eixo.
Uma mistura de gases que se resumem a uma imagem no vidro do teu carro.
Bafos de oxigénio e dióxido de carbono.
Desenhas o mundo com a ponta do teu dedo.
Um risco.
Um traço.
Um nada que se esbate.
Lá fora o ambiente funde-se com a chuva e desmorona-se aos teus olhos.
Desfaz-se no alcatrão.
Líquido pisado por pneus.
Dentro de ti o vapor vai-se acumulando.
Ligas o ar condicionado e sentes o nariz comprimir-se.
Sentes a mudança da temperatura.
Desfazes-te dos tecidos.
Inspiras.
Expiras.
E perpetuas o ciclo.